quinta-feira, 22 de outubro de 2009

OLHA O GRUPO DO GESTAR II DE RECIFE- PÓLO ESCOLA PROFª HELENA PUGÓ




Após o término e apresentação do Projeto :VIDA E ENCANTOS DO SERTÃO NA OBRA DE PATATIVA DO ASSARÉ...o grupo deu uma relaxada e posou para fotos .Projeto realizado e com êxito !!!!!!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

NOSSO MESTRE PATATIVA DO ASSARÉ...ETERNO CANTADOR DO NORTE E NORDESTE DO BRASIL


" PARA SER POETA NO SERTÃO
NEM PRECISA SER PROFESSOR.
BASTA VER MAIO CHEGAR
COM UM POEMA EM CADA GALHO,
E UM VERSO EM CADA FLOR."
Aos aos 93 anos de idade partiu nosso poeta, com a força da Acauã, a beleza do Assum preto e voou nas asas da Asa Branca para o Infinito do Reconhecimento como o Poeta da Denúncia Social e que nunca cansou de cantar o seu torrão sertanejo.

OLHEM O PROJETO DO GESTAR II DO PÓLO DA ESCOLA PROFª HELENA PUGÓ - PROJETO : VIDA E ENCANTOS DO SERTÃO NA OBRA DE PATATIVA DO ASSARÉ







PROGRAMA GESTÃO DA APRENDIZAGEM ESCOLAR - GESTAR II





VIDA E ENCANTOS DO SERTÃO NA OBRA DE PATATIVA DO ASSARÉ






Projeto didático proposto pelo Núcleo de Professores do Gestar II do Pólo Helena Pugó.





RECIFE
2009







Justificativa



Aos Poetas ClássicosPoetas niversitário,Poetas de Cademia,De rico vocabularoCheio de mitologia;Se a gente canta o que pensa,Eu quero pedir licença,Pois mesmo sem portuguêsNeste livrinho apresentoO prazê e o sofrimentoDe um poeta camponês. (...)

Procurando divulgar a vida e obra de Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré, o grupo Gestar II, do Pólo Helena Pugó, irá vivenciar em sala de aula, com cada professor do projeto, os cem anos do nascimento desse grande ícone da cultura popular nordestina brasileira, que através de sua poesia apresenta uma língua que remete uma realidade plural vivenciada pelo povo nordestino que sobrevive as adversidades climáticas, bem como sociais.
Filho mais velho entre os cinco irmãos, começou a vida na enxada e freqüentou a escola por seis meses. Porém, Patativa dizia que para ser poeta não era preciso ser professor, ‘Basta no mês de maio, recolher um poema em cada flor brotada nas árvores do seu sertão’.
Dentre as atividades do projeto destacam-se a leitura, escrita e análise lingüística nas aulas de Língua Portuguesa, tendo como foco temático o legado de Patativa do Assaré.

Objetivo Geral

Proporcionar aos leitores, através da obra de Patativa do Assaré, a descoberta por meio da leitura, reflexão e análise dos seus poemas que o mesmo os utilizava como instrumento de denúncia social ; usando dois registros : escrevia na língua cabocla ( estilização da fala do sertanejo) e dentro da norma culta.

Objetivos Específicos

Analisar poemas de Patativa do Assaré, observando o resgate de uma poesia com raízes populares e nutridas no regime da oralidade essencialmente sertaneja.

Propor alternativas de atividades a serem trabalhadas em sala de aula, evidenciando as vertentes que sua obra comporta : a culta e a popular.

Identificar, por meio dos estudos dos seus poemas que sua obra dividia-se em três vertentes : lírica, narrativa e reflexiva; daí a sua interdiscursividade com outros autores e obras, onde a crítica social era constante em relação às injustiças sociais.


Fundamentação Teórica

“ A posição normal do homem no mundo, como um ser de ação e da reflexão, é a de admirador do mundo”. Paulo Freire

Estudando Patativa do Assaré vimos que não é diferente. Em sua biografia e obra no geral, encontramos um homem sensível apesar de ter vivido numa região árida, no contexto do Nordeste brasileiro onde dados estatísticos são suficientemente eloquentes para que não se necessite definir a ausência de formação acadêmica de um homem que aprendeu a ler a palavramundo contextualizada na admiração que tinha pelo seu próprio mundo.
A inquietação pela leitura fez com que Patativa do Assaré procurasse o desenvolvimento interno que predomina sobre o externo. O que está “envolvido” ou “enredado” deve desenvolver-se no sentido de desenredar-se, procurar a palavra viva, com sentido, já que:

( ...)“ Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá.
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidade
De dá um pequeno insaio
In dos livro do iscritô,
O famoso professô
Felisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia :
A pá - ...( ... )
ASSARÉ, Patativa do. Aos Poetas Clássicos

“A pá” seria apenas o instrumento necessário para começar a “lavra”, ou melhor, trabalhar com a “palavra”, pois “se é praticando” que se aprende, vamos praticar para aprender para praticar melhor. ( FREIRE, 2001)
Foi com essa prática que o Mestre de Assaré superou a burocracia escolar e a instrumentalização ideológica da escola que provocam correntes antagônicas que, por mais diversas que sejam, têm em comum a exigência da libertação.
Nesta ótica, a formação, o capital cultural do mestre de Assaré era vivenciar a prática concreta de libertação e de construção da sua história, compreender que aprender a ler, alfabetizar-se é antes de mais nada aprender “a ler o mundo, compreender o seu contexto, não uma manipulação mecânica de palavras, mas numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade.”
Com esta conscientização desenvolveu um novo poder que não é a sujeição aos que pretendem continuar negando aos homens a matriz do conhecimento, mas um convite corajoso àqueles que foram discriminados por serem detentores de um “ saber inferior, ou melhor, fora da escolarização”. (FREIRE, 2001
Mas o reconhecimento vem de teóricos e acadêmicos, a consideração da própria realidade, do meio transcendente que, com sua influência pode modificar a forma de apreciar a realidade concreta, bruta, dura, seca de qualquer homem que não seja profundamente político, crítico, sensível.
Escolarizado na vida, de uma determinação pessoal firme, a obra do Mestre de Assaré serve de objeto de estudo e fundamentação teórica de sujeitos do conhecimento porque “ Não se estuda apenas na Escola. Estudar é assumir uma atitude séria e curiosa diante de um problema”. (FREIRE, 2001)
A palavra, já se disse certa vez, é a matéria-prima da poesia. E a língua é o código que utilizamos para empregá-la. Na perspectiva de Irande Antunes língua “é um ato humano, social, político, histórico, ideológico e que tem conseqüências, que tem repercussões na vida de todas as pessoas”.
“[...] Cada língua ilustra uma das infinitas maneiras que o homem pode encontrar de entender a realidade”. (PERINI, 2006. In ANTUNES. Muito além da gramática).
Patativa do Assaré foi um poeta do povo. Retratava em sua poesia a expressão do sofrimento, da realidade e esperanças do povo nordestino, através de uma linguagem que explora tanto o aspecto culto como também o popular da língua.
“Seu trabalho se distingue pela marcante característica da oralidade. Seus poemas eram feitos e guardados na memória para depois serem recitados”.
A transcrição de sua obra para os meios gráficos perde boa parte da significação expressa por meios não verbais (voz, entonação, pausas, ritmo) que realçam características manifestadas nas atuações gestuais, faciais (hesitação, ironia, veemência). Tinha capacidade de produzir versos tanto no modelo clássico (linguagem culta) como poesia de rima e métrica populares, a “poesia matuta”, segundo o autor (transcrito de Wikipedia).

“[...] Na sua poesia estão presentes todas as lutas e esperanças do povo, estão reunidas palavras, idéias que se erguem com a dignidade guerreira dos justos, contra todas as formas de obscurantismos e de exploração do homem. [...]” (ASSARÉ, Patativa do. Ave Poesia. Academia Brasileira de Cinema).

Embora tenha frequentado a escola por alguns meses, Patativa revela grande intimidade com a língua e com a arte de criar versos na forma como os constrói, na disposição, harmonia e significação das palavras, denotando , conforme cita Irandé,relativamente à gramática, conhecimento intuitivo através de experiências e atividades de sociais de uso da língua.

“Em Patativa, a resistência revela-se nos temas, bem como na tessitura de escritura de seus poemas, no uso da linguagem como demonstração e valorização de uma condição de classe”. (COBRA, Cristiana M. Patativa do Assaré: relações entre Estética, Hermenêutica, Religião e Arte).

Marcuscchi declara que escrever é uma atividade que exige um movimento para o outro, definindo este outro como seu interlocutor. Assim podemos dizer que é nessa intencionalidade de comunicação e interação com o outro e o mundo que Patativa se interpõe como suporte, veículo de manifestação da cultura popular do povo marginalizado e oprimido do sertão nordestino. Como exemplo disto observemos a última estrofe do poema ‘ABC do Nordeste flagelado’:

“Posso dizer que cantei
Aquilo que observei
Tenho certeza de que dei
Aprovada relação
Tudo é tristeza e amargura,
Indigência e desventura
-Veja, leitor,quanto é dura
A seca no meu sertão”.

Com uma capacidade de produção poética que vai do estilo clássico, influência das leituras de Camões (Os Lusíadas), Castro Alves (Espumas Flutuantes), Homero, Bocage e Bilac ao estilo popular (poesia de rima e métrica popular), possui o dom de lidar com as palavras além de interagir com o leitor, mobilizando-o a refletir e muito mais a sentir a dor de um mundo do qual ele se coloca como parte. Seus versos não necessitavam de revisão ou reajustes, já nasciam coma força de manifestação dos sentimentos e de combate às injustiças sociais.
No processo de construção dos textos de Patativa do Assaré verificamos o atrelamento do desempenho e da oralidade que ladeiam o homem, o poeta e o personagem/mito; essencialmente pelos elementos que constituem sua vida e obra. Patativa sabia que para cada situação circunstancial havia um contexto; daí sua maestria em utilizar seus discursos de acordo com o status de seus interlocutores ou das situações que enfrentava. Sempre tinha prontas peças declamativas para atender seus fãs e outros que o visitavam em sua casa. Utilizava poemas curtos e contemplava os nomes dos lugares de onde vinham os visitantes. Quando eram autoridades, intelectuais e mídia, ele sempre esperava que o destino das conversas fosse dada pelos visitantes ilustres. Era nesses momentos que mesclava em suas declamações longas, a linguagem “matuta” à linguagem erudita. Sua poesia é, em certo sentido, bicultural, pois lida com dois registros linguísticos: escreve na língua cabocla, num português popular que é uma estilização da fala do matuto sertanejo e escreve também dentro da norma culta. Nessa parte da obra, observa-se a riqueza do seu léxico e a complexidade de alguns termos sintáticos.
. A obra de Patativa é comparada a um arquivo oral por excelência, além de ser depositário de significantes, esse arquivo oral funciona como fator preponderante nas suas performances de rituais criados pelo mesmo. No momento do desempenho, Patativa assume um papel e realiza um ato social, sendo os autores dessa ação social, no caso, o locutor (ele) e o ouvinte, esteja ou não presente. Toda a linguagem é institucionalizada durante as performances, cada palavra, gesto, tudo é regido por regras. A palavra é ação, interação e cria vínculos. Suas declamações metamorfoseiam sua poética; poética oriunda de cada profissão e cria nos ouvintes um contrato oral : ele refere-se aos seus personagens fictícios como reais, tornando o dito real.
Uma grande maiorias de estudiosos afirmam que a poesia de Patativa é resultante de uma tradição oral; sabemos que tradição oral é um processo contínuo com seus movimentos e marcas visíveis nas culturas contemporâneas e mesmo não visíveis; observamos que todas as culturas são resultantes de tradições orais as mais variadas. Porém se tomarmos o termo oral isolado das relações e associações que têm com as ações que o acompanham, criaremos um impasse. Tudo que é vocalizado ou produto direto da voz não quer dizer que seja oral. Oralidade não é apenas a qualidade do que oral, tampouco se limita às classificações orais ou às suas modalidades. Oralidade implica processo e não algo acabado. E esse processo refere-se aos mecanismos acerca da voz e da sua natureza oral. Zumthor nos diz que faltar-nos uma “ poética geral da oralidade que sirva de apoio às pesquisas particulares aplicáveis ao fenômeno das transmissões da poesia pela voz e pela memória,” tomaremos esse conceito de oralidade para situar a poesia de Patativa no campo teórico segundo o qual uma poesia oral pode ser transmitida, ainda que mediada pela escrita não pode prescindir dos elementos que inauguram a poética oral. Poética que se mescla com a ação do homem no universo e sua presentificação no mundo através da vocalização, do gesto e do desempenho. Grande parte dos poemas de Patativa quando transportados para a escrita são oralizados, pois possuem vozes que desejam a vocalização dos mesmos. Zumthor deixa claro que “ a voz é querer dizer a vontade de existência.A voz é lugar de uma ausência que nela , voz, se transforma em presença. (... ) “ é em torno da voz que se fecha e se solidifica o laço social, enquanto toma forma uma poesia. (...) O sopro da voz é criador.” Logo, estudar oralidade implica em transpor as barreiras dos pressupostos eruditos de uma civilização letrada. Ao falar de uma sobrevivência da oralidade num poema oral, Zumthor não fala em repetição e sim de atualização do antes através da poesia oral. Atualização aponta para movimento, ação e ressignificação; logo a obra de Patativa transcende a dualidade tradição e contemporaneidade: sua obra é universal e imortal. E qual a função da poesia oral? É de dizer e fazer o mundo e para tal se estrutura sob formas de narrativas, que por sua vez se estruturam sob diversos aspectos e modalidades enunciadoras e comunicativas.
Segundo Bagno, o problema do preconceito linguístico não está no que se fala, mas em quem fala o quê. O “preconceito linguístico é decorrente de um preconceito social, tão comum às comunidades ditas letradas”. Forma-se então o preconceito da linguagem contra a fala de determinadas classes sociais consideradas “ incultas”, e também contra a fala característica de determinadas regiões.O preconceito lingüístico surge da idéia equivocada de que existe apenas um tipo de língua correta: aquela língua dicionarizada e gramaticalizada. A idéia de propriedade ou impropriedade da língua utiliza-se do padrão linguístico literário como parâmetro; logo, todos os outros modos de expressão oral são considerados erros. Observemos como os nordestinos são mostrados nas novelas televisivas: de modo jocoso, considerado” um tipo grotesco, rústico, atrasado e criado para provocar o riso, o escárnio e deboche nos demais personagens e no espectador.”
Portanto, os seres humanos são capazes de escolher modificar a sociedade e de criar maneiras de viver. Sabemos que nem todas as variações linguísticas têm o mesmo prestígio social no Brasil. Basta lembrar de algumas variações usadas por pessoas de determinadas classes sociais ou regiões para percebermos que há preconceito em relação a elas.O texto abaixo mostra a temática da poesia :
O poeta da roça

Sou fio das mata, canto da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de paia de mío.
Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argun menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.
Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! Vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.
Meu verso rastero, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão. (...)

Você acredita que a forma de falar e de escrever comprometeu a emoção transmitida por este poema?
O que realmente nos torna bons escritores é o contexto, a vivência com várias tipologias textuais, ou seja, a interação com as diversas linguagens e o contexto social que vivemos. E quem melhor que Patativa para conhecer esse árido social, tão esquecido por alguns e tão vivenciado pelo sertanejo? É amplamente disseminado que dominar a norma culta é instrumento de ascensão social. Ora, o próprio Bagno enfatiza que se realmente isso fosse real, os professores de português estariam ocupando o topo da pirâmide social, econômica e política do país; afinal, supostamente, ninguém melhor que esses professores para dominarem a norma culta. Esse mito deve ser desconstruído através da compreensão de que o domínio da língua culta não ascende socialmente uma pessoa, pois ela está diretamente ligada ao reconhecimento dos direitos do cidadão (direitos não respeitados em sua maioria, quando se fala em Norte e Nordeste desse Brasil). Quando lemos o poema de Patativa “ Coisas do meu sertão” fica fortemente evidenciado o questionamento quanto à educação bancária, ao preconceito linguístico e aos direitos do cidadão que vive no sertão e luta desesperadamente para não deixar a sua terra“ ... o sertanejo é antes de tudo um forte...”colocação feita pelo escritor Euclides da Cunha.

Seu dotô, que é da cidade
Tem diproma e posição
E estudou derne minino
Sem perdê uma lição,
Conhece o nome dos rios,
Que corre inriba do chão,
Sabe o nome das estrela
Que forma constelação,
Conhece todas as coisa
Da histora da criação
E agora qué i na Lua
Causando admiração,
Vou fazê uma pergunta,
Me preste bem atenção:
Pruque não quis aprendê
As coisa do meu sertão?

Por favô, não negue não
Quero que o sinhô me diga
Pruquê não quis o roçado
Onde se sofre fadiga,
Pisando inriba do toco,
Lacraia, cobra e formiga,
Cocerento de friera,
Incalombado de urtiga,
Muntas vez inté duente,
Sofrendo dô de barriga,
Mas o jeito é trabaiá
Que a necessidade obriga.
ASSARÉ. Patativa do. Coisas do meu sertão.

Patativa é um poeta ímpar no cenário da poesia nacional do século XX, ele mantém viva e atualizada uma poesia de raízes populares, alimentada na oralidade; contudo aumenta os limites temáticos e formais dessas tradições ao somar um refinado lirismo a uma consciência social.




Metodologia

Inicialmente ocorrerá o estudo biográfico do poeta, para em seguida ser analisada sua obra por meio de aulas ( cinco ) onde teremos o desdobramento da sua obra com a de demais autores de acordo com o aporte teórico.

Cronograma

Fases de produção do projeto.
Agosto
Setembro
Estudo temático.
X

Pesquisa biográfica e bibliográfica.
X

Produção do texto (projeto)
X
X
Elaboração do material.
X
X
Conclusão do projeto.
X
X


Referências Bibliográficas

ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.

_________, Irandé. Muito além da gramática: por um ensino de línguas sem pedras no caminho. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.


ASSARÉ, Patativa. Antologia Poética. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2007.

BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. 34ª ed. São Paulo: Loyola, 2004.

Base Curricular Comum para as Redes Públicas de Ensino de Pernambuco: língua portuguesa/ Secretaria de Educação. Recife: SE. 2008.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. 47ª. ed. São Paulo: Cortez, 1921 - 1997.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção Textual: análise de gêneros e compreensão. 4 ed. Recife: Departamento de Letras/UFPE, 2006.

RAMOS, Graciliano. Vidas secas .Rio, São Paulo: Record, 2000.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

ZUMTHOR, Paul . Introdução à poesia oral. São Paulo: Hucitec, 1997.




ANEXOS



Plano de aula: vida e obra de Patativa do Assaré.

OBJETIVO
Viabilizar o estudo biográfico e da obra de Patativa do Assaré em comemoração aos seus cem anos de vida, para a elaboração de um cordel.
CONTEÚDOS / COMPETÊNCIAS E HABILIDADES RELACIONADAS AO CONTEÚDO (BCC)

Estudo do gênero biografia a partir da vida de Patativa do Assaré; e
Estudo das variações lingüísticas na obra de Patativa do Assaré.
METODOLOGIA
1º Passo: Pesquisa da biografia de Patativa do Assaré;
2º Passo: Leitura dos poemas “Realidade da Vida”, “Cante lá, que eu canto cá” e “O poeta da roça”, abordando as variantes lingüísticas e os recursos lingüísticos;
3º Passo: Estudo das características e a produção de um cordel, através da biografia de Patativa do Assaré;
4º Passo: Reescrita das produções do cordel e organizar grupos para apresentação do Sarau; e
5º Passo: Lançamento do cordel durante o Sarau de poesias no espaço cultural da escola.
RECURSOS
Cópia do texto do livro “Tudo é Linguagem” de Ana Borgato, Terezinha Bertin e Vera Marchese. Língua Portuguesa – 6ª série, ed. Ática, Págs. 171–173 e da coletânea Literatura em minha casa – Ofício de poeta, ed. Scipione, vol 1, págs. 30-37.



AVALIAÇÃO
O aluno será avaliado a partir da sua desenvoltura na habilidade argumentativa e oral, além da realização das atividades propostas.
CRONOGRAMA
10 h/a













Plano de aula: para você, o que é o Sertão?

OBJETIVO
Promover o estudo do poema Eu e o sertão de Patativa do Assaré, evidenciando a temática Para você, o que é o Sertão?, bem como relacionar trechos do romance Grande Sertão: Veredas , de João Guimarães Rosa e da música Eu e Deus no sertão da dupla sertaneja Vítor e Léo.
CONTEÚDOS / COMPETÊNCIAS E HABILIDADES RELACIONADAS AO CONTEÚDO (BCC)

Romance/ Tipo Textual Narrativo – Reconhecer os elementos constituintes do esquema narrativo. (P. 23 a 25) de Grande Sertão: Veredas, localizando informações explícitas e implícitas e identificar a temática do texto;
Reconhecimento das diferentes formas de tratar uma informação na comparação de textos que tratam do mesmo tema, em função das condições em que ele foi produzido e daquelas em que será recebido - interdiscurso;
Variantes lingüísticas: registro de regionalismo a fim de identificar as marcas lingüísticas que evidenciam o locutor e o interlocutor de um texto;
Estudo do gênero cordel a partir do texto de Patativa do Assaré: Eu e o Sertão. Pag. 153 a 158;
Estudo das biografias de J. Guimarães Rosa e Patativa; e
Estudo do gênero canção.
METODOLOGIA
1º Passo: Estudo do texto Eu e o Sertão de Patativa do Assaré para construção do conceito de variantes lingüísticas, registro de conteúdo, análise de textos e produção de exercício;
2º Passo: Análise oral e escrita (minuciosa) de alguns trechos do livro Grande Sertão: Veredas;
3º Passo: Apreciação da Música Eu e Deus no Sertão de Vítor e Léo para discussão da temática (sertão) e suas características, debate sobre o porquê do sertão inspirar tantos artistas;
4º Passo: Produção textual do tipo argumentativo: Para você, o que é o Sertão?; e
5º Passo: Registros de pontos comuns e divergentes entre as vidas e obras dos escritores João Guimarães Rosa e Patativa do Assaré.
RECURSOS
Cópia do texto de Patativa Eu e o Sertão, dos trechos do romance de J. Guimarães Rosa e da música Eu e Deus no sertão de Vítor e Léo. Dvd do documentário sobre a vida e obra de Patativa o Assaré. Dvd do filme Vidas secas de Graciliano Ramos.
AVALIAÇÃO
O aluno será avaliado a partir da sua desenvoltura na habilidade argumentativa e oral, além da realização das atividades propostas.
CRONOGRAMA
08 h/a








Plano de aula: perfil do homem nordestino.

OBJETIVO
Viabilizar o estudo do poema O retrato do sertão de Patativa do Assaré, evidenciando a temática perfil do homem nordestino, além de relacionar o poema Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto e a composição musical de Chico Science Manguetown.
CONTEÚDOS / COMPETÊNCIAS E HABILIDADES RELACIONADAS AO CONTEÚDO (BCC)

Variação Lingüística no intuito de promover a reflexão sobre a natureza mutável da língua e sobre a legitimidade comunicativa de todas as manifestações de variação*.
*Variação histórica
Acontece ao longo de um determinado período de tempo, pode ser identificada ao se comparar dois estados de uma língua. O processo de mudança é gradual: uma variante inicialmente utilizada por um grupo restrito de falantes passa a ser adotada por indivíduos socioeconomicamente mais expressivos. A forma antiga permanece ainda entre as gerações mais velhas, período em que as duas variantes convivem; porém com o tempo a nova variante torna-se normal na fala, e finalmente consagra-se pelo uso na modalidade escrita. As mudanças podem ser de grafia ou de significado.
Variação geográfica
Trata das diferentes formas de pronúncia, vocabulário e estrutura sintática entre regiões. Dentro de uma comunidade mais ampla, formam-se comunidades linguísticas menores em torno de centros polarizadores da cultura, política e economia, que acabam por definir os padrões lingüísticos utilizados na região de sua influência. As diferenças lingüísticas entre as regiões são graduais, nem sempre coincidindo com as fronteiras geográficas.
Variação social
Agrupa alguns fatores de diversidade: o nível sócio-econômico, determinado pelo meio social onde vive um indivíduo; o grau de educação; a idade e o sexo. A variação social não compromete a compreensão entre indivíduos, como poderia acontecer na variação regional; o uso de certas variantes pode indicar qual o nível sócio-econômico de uma pessoa, e há a possibilidade de alguém oriundo de um grupo menos favorecido atingir o padrão de maior prestígio.
Variação estilística
Considera um mesmo indivíduo em diferentes circunstâncias de comunicação: se está em um ambiente familiar, profissional, o grau de intimidade, o tipo de assunto tratado e quem são os receptores. Sem levar em conta as graduações intermediárias, é possível identificar dois limites extremos de estilo: o informal, quando há um mínimo de reflexão do indivíduo sobre as normas lingüísticas, utilizado nas conversações imediatas do cotidiano; e o formal, em que o grau de reflexão é máximo, utilizado em conversações que não são do dia-a-dia e cujo conteúdo é mais elaborado e complexo. Não se deve confundir o estilo formal e informal com língua escrita e falada, pois os dois estilos ocorrem em ambas as formas de comunicação.
As diferentes modalidades de variação lingüística não existem isoladamente, havendo um inter-relacionamento entre elas: uma variante geográfica pode ser vista como uma variante social, considerando-se a migração entre regiões do país. Observa-se que o meio rural, por ser menos influenciado pelas mudanças da sociedade, preserva variantes antigas. O conhecimento do padrão de prestígio pode ser fator de mobilidade social para um indivíduo pertencente a uma classe menos favorecida.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Varia%C3%A7%C3%A3o_(lingu%C3%ADstica).

Tipo Textual Narrativo a fim de reconhecer os elementos constituintes do esquema narrativo.
Paródia com o intuito de emprestar ao texto alguns aspectos de novidade e de criatividade.
Produção Poética e Bricolagem visando o incentivo a produção poética, bem como adicionar novos elementos aos textos que traduzam semanticamente o conteúdo retirado em jornais e revistas.
METODOLOGIA
1º Passo: Estudo da poesia de Patativa do Assaré Vida Sertaneja, poema Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto e da música Chico Science Manguetown, identificando o espaço em que se localizam e a situação social das personagens dos textos a fim de retratar a temática sobrevivência.
2º Passo: Identificação das variações lingüísticas objetivando estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando os aspectos do contexto histórico, geográfico, social e estilístico.
3º Passo: Produção textual narrativa alusiva a temática: perfil do nordestino: sertão, Capibaribe e mar.
4º Passo: Produção Poética.
5º Passo: Produção de bricolagem poética.
RECURSOS
Cópia do texto poema Vida Sertaneja de Patativa do Assaré, poema Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto e a composição musical de Chico Science Manguetown, revistas, jornais, material de papelaria e som.
AVALIAÇÃO
O aluno será avaliado a partir da sua desenvoltura na habilidade argumentativa e oral, além da realização das atividades propostas.
CRONOGRAMA
10 h/a




Plano de aula: a seca e a felicidade dos sertanejos decorrente da chuva.


OBJETIVO
Analisar o poema Dois Quadros de Patativa do Assaré e a música Chover (ou invocação para um dia líquido) da banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado, bem como identificar as principais características da poesia de Patativa e da música de Cordel do Fogo Encantado, evidenciando a temática da seca e da felicidade dos sertanejos decorrente da chuva.
CONTEÚDOS / COMPETÊNCIAS E HABILIDADES RELACIONADAS AO CONTEÚDO (BCC)

Conceituais: Preconceito linguístico: a simplicidade da fala nordestina; a diferença entre linguagem formal e linguagem informal em textos escritos.
Atitudinais: Interesse pelo conhecimento e compreensão do universo nordestino, sertanejo; Interesse por descobrir as várias formas que a linguagem pode ser empregada.
METODOLOGIA
1º Passo: Leitura interpretativa em sala de aula da poesia Dois Quadros de Patativa do Assaré e apreciação da música Chover (ou invocação para um dia líquido) de Cordel do Fogo Encantado seguido de debate para associações temáticas entre os dois textos;
2º Passo: Análise linguística dos dois textos valorizando a linguagem informal como retrato de um grupo de pessoas baseado na leitura de capítulo do livro de Marcos Bagno – “Preconceito Linguístico”. Em seguida debate com base na leitura do texto de Marcos Bagno;
3º Passo: Produção de um sarau, com leitura de poesias de Patativa do Assaré; e
4º Passo: Produção de uma pequena estória baseada na letra da música de Cordel do Fogo Encantado para possível representação.
RECURSOS
Poesia e Música impressas para leitura, trecho impresso do capítulo I – “As pessoas sem instrução falam tudo errado” (p. 40) do livro Preconceito Linguístico de Marcos Bagno, cd e som para reprodução da música de Cordel do Fogo Encantado, espaço para apresentação do sarau e material para a reprodução da estória escrita pelos alunos.
AVALIAÇÃO
O aluno será avaliado a partir da sua desenvoltura na habilidade argumentativa e oral, além da realização das atividades propostas.
CRONOGRAMA
08 h/a





Plano de aula: poema “ A triste partida” de Patativa do Assaré e capítulos do romance “ Vidas Secas “ de Graciliano Ramos.

OBJETIVOS
Desenvolver plano de aula, tomando como referência o tema do Projeto do Gestar II – “ Vida e Encantos do Sertão na Obra de Patativa do Assaré”

Reconhecer no poema de Patativa a importância da oralidade como meio de denúncia social da vida do sertanejo.

Identificar nos capítulos do livro “ Vidas Secas”o mesmo tema abordado no poema “ A triste partida”, mediante outra perspectiva estrutural e formal.

Relatar após estudos e análises a interação entre os textos ( capítulos do livro e poema canção) objetivando mostrar o ritual vivido pelo sertanejo diante da escassez da chuva e suas consequências sócio-econômicas.

Argumentar, utilizando os textos trabalhados, salientando que a vida do sertanejo permanece a mesma, apesar do progresso tão alardeado pelos governantes.

CONTEÚDOS / COMPETÊNCIAS E HABILIDADES RELACIONADAS AO CONTEÚDO (BCC)

Analise do discurso oral do poema canção de Patativa, verificando o contexto social no qual o mesmo está inserido.

Discussão acerca dos elementos que estão na base do preconceito linguístico e sua natureza discriminatória, concernentes ao poema e a música.

Reconhecimento dos gêneros textuais e seus elementos constituintes ( narração ( contos )e poema canção ).

Identificação dos temas centrais de cada texto.

Estabelecimento das relações temáticas ou estruturais, de semelhança ou oposição, entre textos de autores e épocas diversas.

Reflexão sobre a linguagem como uma das formas de atuação do homem sobre a realidade em que vive.

Reflexão sobre o caráter discursivo e interdiscursivo da língua.

METODOLOGIA
1º Passo: Documentário sobre vida e obra de Patativa do Assaré.

2º Passo: Estudo dos textos: “A triste partida”, dos capítulos do livro “ Vidas Secas” (Mudança – Baleia – Fuga ) e apreciação da canção “ A triste partida”; estabelecendo entre os mesmos relações intertextuais e temáticas.

3º Passo: Apreciação da música “A triste partida” na voz de Luiz Gonzaga e criar um paralelo entre os capítulos do livro “ Vidas Secas” e a mesma para que seja discutido as questões orais, sociais e econômicas.

4º Passo: Debates orientados salientando a luta do sertanejo para não emigrar do seu “ torrão” apesar do contínuo ciclo da seca que o atinge.

5º Passo: Identificação das variações linguísticas dos textos trabalhados, criando relações entre o texto literário e o texto não literário ( o popular).

6º Passo: Dramatização do poema canção e dos capítulos de “ Vidas Secas” utilizando a linguagem característica de cada um e deixando fluir a criticidade.

7º Passo: Construção de tiras e charges alusivas aos textos trabalhados e exposição das mesmas.

RECURSOS
Cópias do poema canção “ A triste partida”, cópias dos capítulos de “ Vidas Secas” – “ Mudança”, Baleia” e “Fuga”, exposição do Filme “Vidas Secas” via TV/DVD, exposição do documentário de Patativa via TV/DVD, audição da música “ A triste partida” via CD/ SOM, papel, lápis e tinta ( construção das charges ).

AVALIAÇÃO
· Será levada em conta a participação do aluno nas discussões e nas apresentações dramáticas/ charges elaboradas em aula, cuja temática permita que seja observado o entendimento do mesmo diante dos conteúdos apresentados.

CRONOGRAMA
10 h/a







TEXTOS




A Triste Partida
Patativa do Assaré

Meu Deus, meu DeusSetembro passouOutubro e NovembroJá tamo em DezembroMeu Deus, que é de nós,Meu Deus, meu DeusAssim fala o pobreDo seco NordesteCom medo da pesteDa fome ferozAi, ai, ai, aiA treze do mêsEle fez experiênçaPerdeu sua crençaNas pedras de sal,Meu Deus, meu DeusMas noutra esperançaCom gosto se agarraPensando na barraDo alegre NatalAi, ai, ai, aiRompeu-se o NatalPorém barra não veioO sol bem vermeioNasceu muito alémMeu Deus, meu DeusNa copa da mataBuzina a cigarraNinguém vê a barraPois barra não temAi, ai, ai, aiSem chuva na terraDescamba Janeiro,Depois fevereiroE o mesmo verãoMeu Deus, meu DeusEntonce o nortistaPensando consigoDiz: "isso é castigonão chove mais não"Ai, ai, ai, aiApela pra MarçoQue é o mês preferidoDo santo queridoSinhô São JoséMeu Deus, meu DeusMas nada de chuvaTá tudo sem jeitoLhe foge do peitoO resto da féAi, ai, ai, aiAgora pensandoEle segue outra triaChamando a famiaComeça a dizerMeu Deus, meu DeusEu vendo meu burroMeu jegue e o cavaloNóis vamo a São PauloViver ou morrerAi, ai, ai, aiNóis vamo a São PauloQue a coisa tá feiaPor terras alheiaNós vamos vagarMeu Deus, meu DeusSe o nosso destinoNão for tão mesquinhoAi pro mesmo cantinhoNós torna a voltarAi, ai, ai, aiE vende seu burroJumento e o cavaloInté mesmo o galoVenderam tambémMeu Deus, meu DeusPois logo apareceFeliz fazendeiroPor pouco dinheiroLhe compra o que temAi, ai, ai, aiEm um caminhãoEle joga a famiaChegou o triste diaJá vai viajarMeu Deus, meu DeusA seca terríviQue tudo devoraAi,lhe bota pra foraDa terra natalAi, ai, ai, aiO carro já correNo topo da serraOiando pra terraSeu berço, seu larMeu Deus, meu DeusAquele nortistaPartido de penaDe longe acenaAdeus meu lugarAi, ai, ai, aiNo dia seguinteJá tudo enfadadoE o carro embaladoVeloz a correrMeu Deus, meu DeusTão triste, coitadoFalando saudosoCom seu filho chorosoIscrama a dizerAi, ai, ai, aiDe pena e saudadePapai sei que morroMeu pobre cachorroQuem dá de comer?Meu Deus, meu DeusJá outro perguntaMãezinha, e meu gato?Com fome, sem tratoMimi vai morrerAi, ai, ai, aiE a linda pequenaTremendo de medo"Mamãe, meus brinquedoMeu pé de fulô?"Meu Deus, meu DeusMeu pé de roseiraCoitado, ele secaE minha bonecaTambém lá ficouAi, ai, ai, aiE assim vão deixandoCom choro e gemidoDo berço queridoCéu lindo e azulMeu Deus, meu DeusO pai, pesarosoNos fio pensandoE o carro rodandoNa estrada do SulAi, ai, ai, aiChegaram em São PauloSem cobre quebradoE o pobre acanhadoPercura um patrãoMeu Deus, meu DeusSó vê cara estranhaDe estranha genteTudo é diferenteDo caro torrãoAi, ai, ai, aiTrabaia dois ano,Três ano e mais anoE sempre nos pranoDe um dia vortarMeu Deus, meu DeusMas nunca ele podeSó vive devendoE assim vai sofrendoÉ sofrer sem pararAi, ai, ai, aiSe arguma notíçaDas banda do norteTem ele por sorteO gosto de ouvirMeu Deus, meu DeusLhe bate no peitoSaudade de móioE as água nos óioComeça a cairAi, ai, ai, aiDo mundo afastadoAli vive presoSofrendo desprezoDevendo ao patrãoMeu Deus, meu DeusO tempo rolandoVai dia e vem diaE aquela famiaNão vorta mais nãoAi, ai, ai, aiDistante da terraTão seca mas boaExposto à garoaA lama e o paúMeu Deus, meu DeusFaz pena o nortistaTão forte, tão bravoViver como escravoNo Norte e no SulAi, ai, ai, ai


______________________________________________________________________


Morte e Vida Severina
João Cabral de Melo Neto


O meu nome é Severino, como não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo ora a Vossas Senhorias? Vejamos: é o Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com nome de Severino filhos de tantas Marias mulheres de outros tantos, já finados, Zacarias, vivendo na mesma serra magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas e iguais também porque o sangue, que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras suando-se muito em cima, a de tentar despertar terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar alguns roçado da cinza. Mas, para que me conheçam melhor Vossas Senhorias e melhor possam seguir a história de minha vida, passo a ser o Severino que em vossa presença emigra.




Manguetown
Chico Science

Estou enfiado na lama É um bairro sujo Onde os urubus têm casas E eu não tenho asas Mas estou aqui em minha casa Onde os urubus têm asas Vou pintando segurando as paredes do mangue do meu quintal Manguetown Andando por entre os becos Andando em coletivos Ninguém foge ao cheiro sujo Da lama da Manguetown Andando por entre os becos Andando em coletivos Ninguém foge à vida suja dos dias da Manguetown Esta noite eu sairei Vou beber com meus amigos E com as asas que os urubus me deram ao dia Eu voarei por toda a periferia Vou sonhando com a mulher Que talvez eu possa encontrar Ela também vai andar Na lama do meu quintal Manguetown Fui no mague catar lixo Pegar caranguejo, conversar com urubu
_________________________________________________________________


Deus E Eu No Sertão
Victor e Leo

Composição: Victor Chaves
Nunca vi ninguémViver tão felizComo eu no sertão


Perto de uma mataE de um ribeirãoDeus e eu no sertão


Casa simplesinhaRede pra dormirDe noite um show no céuDeito pra assistir

Deus e eu no sertão

Das horas não seiMas vejo o clarãoLá vou eu cuidar do chão

Trabalho cantandoA terra é a inspiração
Deus e eu no sertão

Não há solidãoTem festa lá na vilaDepois da missa vouVer minha menina


De volta pra casaQueima a lenha no fogãoE junto ao som da mataVou eu e um violão

Deus e eu no sertão





Eu e o Sertão
Patativa do Assaré

Sertão, arguém te catô
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tõ,
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
E vejo qui os teus mistero
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Qui o poeta canta, canta
E inda fica o qui cantá.

No rompê de tua orora,
Meu sertão do Ciará,
Quando escuto as voz sonora
Do sadoso sabiá,
Do canaro e do campina,
Sinto das graça divina
O seu imenso pudê,
E com munta razão vejo,
Que a gente sê sertanejo
É um dos maió prazê.


Sertão, minha terra amada,
De bom e sadio crima,
Que me deu de mão bejada
Um mundo cheio de rima.
O teu só é tão ardente,
Que treme a vista da gente
Nas parede de reboco,
Mas tem milagre e virtude,
Que dá corage, saúde
E alegria aos teus caboco.


Acho mesmo que ninguém
Sabe direito cantá
Tanta beleza que tem
Tuas noite de luá,
Quando a lua sertaneja,
Toda amorosa despeja
Um grande banho de prata
Pro riba da terra intêra
E a brisa assopra manêra,
Fazendo cosca na mata.

Sertão do Bumba Meu Boi
E da armonca de oito baxo,
O teu fio sempre foi
Corajoso, Cabra Macho;
O tempo nunca destrói
A fama do teu herói
De pernêra e de gibão,
Caboco que não resinga
Corrê dentro da catinga,
Na pega do barbatão.

Tu é belo e é importante,
Tudo teu é naturá
Ingualmente o diamante,
Ante de arguém lapidá.
Deste jeito é que te quero,
Munto te estimo e venero,
Vivendo assim afastado
Da vaidade, do orguio,
Guerra, questão e baruio
Do mundo civilizado.

Tu veve munto esquecido
Dos meio da inducação,
Sempre, sempre tem vivido,
Sem escola e sem lição.
Teu mundo é bem pequenino,
Por isso do teu destino,
Da tua simplicidade
Nasce a fé e a esperança;
Tua santa inguinorança
Incerra munta verdade.

Rescordo com grande amô
O meu tempo de rapaz,
Tempo qui os ano levô
E os desengano não traz,
Quando toda noite eu ia
Cheio de doce alegria,
Sem infado do trabaio,
Uvi, de peito contrito,
As oração e os bendito
Das festa do mês de maio.

Uma singela bandêra
Bem no terrêno se via,
Homenage verdadêra
Do santo mês de Maria,
Na sala, inriba da mesa,
Umas quatro vela acesa
E de juêio no chão,
Uma muié paciente
Lendo vagarosamente
Com a cartia na mão.

Inquanto lendo seguia
Aquela boa sinhora,
De quando in vez repetia
Bonita jaculatóra;
Todo povo acumpunhava
E quando a mesma rezava
Padre Nosso e Ave Maria,
De contrição todas cheia,
Com suas voz de Sereia,
As caboca respondia.


_Neste mês de alegria,
Tão lindro mês de frô,
Queremo de Maria
Celebrá o seu louvô.

Sertão amigo, eu tô vendo
Que o s teus nôvo camponês,
Hoje ainda tão fazendo
Aquilo que os véio fez.

Que doce felicidade
Eu gozei na mocidade,
Nesta santa ingorfação!
Quando se acabava Maio,
Já começava os insaio
Do santo mês de S. João.


Como o ricaço usuraro
Guarda uma moeda de ôro
Fiz do meu peito sacraro
E guardei estes tesôro.
E aqui, dentro do meupeito,
Inda tá tudo perfeito,
Não mudaro de feição
As duas fotografia,
Do santo mês de Maria
E nem vai fugí tão cedo
As diversão de adivinha,
Manêro pau, Cirandinha
E muitos ôtro brinquedo.

Hoje sou veió e tô vendo
Que já tô perto da morte,
Mas porém, morro dizendo
Que fui caboco de sorte,
Não dou cavaco in morrê,
Somente por conhecê
Qui há tempo tá reservado
In tu, querido sertão,
O meu quadrinho de chão
Pra nele eun sê sipurtado.

E mesmo depois de morto,
Mesmo depois de morrê,
Ainda gozo conforto,
Ainda gozo prazer,
Pois, se é verdade que as arma,
Mesmo as que vivero carma
E arcançaro a sarvação,
Fica vagando no espaço,
Os meus caracó eu faço
Pro riba do meu sertão.





João Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas
- Nonada. Tiros que o senhor ouviu forma de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu - ; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pela a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão?Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre e volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda parte.
Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele - dizem só: o Que-Diga. Vote! não... Quem muito se evita, se convive. Sentença num Aristides – o que existe no buritizal primeiro desta minha mão direita, chamado a Vereda-da-Vaca-Mansa-de-Santa-Rita – todo o mundo crê: ele não pode passar em três lugares, designados: porque então a gent escuta um chorinho, atrás, e uma vozinha que avisando: - “Eu já vou! Eu já vou!...”- que é o capiroto, o que-diga... E um jisé Simpilício – quem qualque daqui jura ele tem um capeta em casa, miúdo satanazim, preso obrigado a ajudar em toda ganância que executa; razão que o Simpilício se empresa em vias de completar de rico. Apre, por isso dizem também que a besta pra ele rupêia, nega de banda, não deixando, quando ele quer amontar... Superstição. Jisé Simpilício e Aristides, mesmo então se engoradando, de assim não-ouvir ou ouvir. Ainda o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de época, tem gente porfalando que o Diabo próprio parou, de passagem, no Andrequicé. Um moço de fora, teria aparecido, e lá se louvou que, para aqui vir – normal, a cavalo, dum dia-e-meio – ele era capaz que só com uns vinte minutos bastava... porque costeava o Rio do Chico pelas cabeceiras! Ou, também, quem sabe – sem ofensas – não terá sido, por um exemplo, até mesmo o senhor quem anunciou assim, quando passou por lá, por prazido divertimento engraçado? Há- de, não me dê crime, sei que não foi. E mal eu não quis. Só que uma pergunta, em hora, às vezes clarêia razão de paz. Mas, o senor entenda: o tal moço, se há, quis mangar. Pois, hem, que, despontar o Rio pelas nascentes, será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso Estado nosso, custante viagem de uns três meses... Então? Que-Diga? Doideira. A fantasiação. E, o respeito de dar a ele assim esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que ele forme forma, com as presenças!
_________________________________________________________________________

Dois quadros

Na seca inclemente do nosso Nordeste,O sol é mais quente e o céu mais azulE o povo se achando sem pão e sem veste,Viaja à procura das terra do Sul.De nuvem no espaço, não há um farrapo,Se acaba a esperança da gente roceira,Na mesma lagoa da festa do sapo,Agita-se o vento levando a poeira.A grama no campo não nasce, não cresce:Outrora este campo tão verde e tão rico,Agora é tão quente que até nos pareceUm forno queimando madeira de angico.Na copa redonda de algum juazeiroA aguda cigarra seu canto desataE a linda araponga que chamam Ferreiro,Martela o seu ferro por dentro da mata.O dia desponta mostrando-se ingrato,Um manto de cinza por cima da serraE o sol do Nordeste nos mostra o retratoDe um bolo de sangue nascendo da terra.Porém, quando chove, tudo é riso e festa,O campo e a floresta prometem fartura,Escutam-se as notas agudas e gravesDo canto das aves louvando a natura.Alegre esvoaça e gargalha o jacu,Apita o nambu e geme a juritiE a brisa farfalha por entre as verduras,Beijando os primores do meu Cariri
De noite notamos as graças eternasNas lindas lanternas de mil vagalumes.Na copa da mata os ramos embalamE as flores exalam suaves perfumes.Se o dia desponta, que doce harmonia!A gente aprecia o mais belo compasso.Além do balido das mansas ovelhas,Enxames de abelhas zumbindo no espaço.E o forte caboclo da sua palhoça,No rumo da roça, de marcha apressadaVai cheio de vida sorrindo, contente,Lançar a semente na terra molhada.Das mãos deste bravo caboclo roceiroFiel, prazenteiro, modesto e feliz,É que o ouro branco sai para o processoFazer o progresso de nosso país




CHOVER

"O sabiá no sertãoQuando canta me comovePassa três meses cantandoE sem cantar passa novePorque tem a obrigaçãoDe só cantar quando chove*Chover choverValei-me Ciço o que posso fazerChover choverUm terço pesado pra chuva descerChover choverAté Maria deixou de moerChover choverBanzo Batista, bagaço e banguêChover choverCego Aderaldo peleja pra verChover choverJá que meu olho cansou de choverChover choverAté Maria deixou de moerChover choverBanzo Batista, bagaço e banguêMeu povo não vá simboraPela ItapemirimPois mesmo perto do fimNosso sertão tem melhoraO céu tá calado agoraMais vai dar cada trovãoDe escapulir torrãoDe paredão de tapera**Bombo trovejou a chuva choveuChoveu choveuLula Calixto virando MateusChover choverO bucho cheio de tudo que deuChover choversuor e canseira depois que comeuChover choverZabumba zunindo no colo de DeusChover choverInácio e Romano meu verso e o teuChover choverÁgua dos olhos que a seca bebeuQuando chove no sertãoO sol deita e a água rolaO sapo vomita espumaOnde um boi pisa se atolaE a fartura esconde o sacoQue a fome pedia esmola**Seu boiadeiro por aqui choveuSeu boiadeiro por aqui choveuChoveu que amarrotouFoi tanta água que meu boi nadou***


___________________________________________________________

VISITANDO BRASÍLIA



Não Sei
Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
Se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo.
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais.
Mas que seja intensa, verdadeira e pura.
Enquanto durar.
“Feliz aquele que transfere o que sabe ...
... e aprende o que ensina.”

( Cora Coralina )

sábado, 10 de outubro de 2009

O trabalho que segue foi desenvolvido por Luciana Moura onde a mesma explora o gênero HQs.

ESCOLA ESTADUAL PADRE DEHON






HISTÓRIA EM QUADRINHOS NA SALA DE AULA



























RECIFE

2009

JUSTIFICATIVA


As Histórias em Quadrinhos (HQ) seduzem seus leitores, proporcionando uma leitura prazerosa, espontânea e podem ser utilizadas em todos nos níveis de aprendizado.

Os quadrinhos são oriundos da mídia impressa, portanto, similares aos livros; o manuseio e o contato com esse tipo de suporte lingüístico criam o hábito e uma intimidade que podem ser gradualmente transferidos para os livros. Vale ressaltar que surgiram há cerca de cem anos.

Os HQs unem artes plásticas e literatura, articulando texto e imagem. A última situa o leitor através de características descritivas, pois descrevem personagens, cenários e assim por diante, apresentando também, a função expressiva que exprime emoções através da postura, gestos e expressões faciais das personagens.

No intuito de assumir a linguagem e texto imagético como produto da interação discursiva entre usuários da língua materna, acreditamos que o ensino da Língua Portuguesa deve ser pautado na leitura, produção textual e análise lingüística. Para tanto, as histórias em quadrinhos são recursos que oferecem o referido suporte nas aulas de língua Portuguesa, bem como viabilizam um momento prazeroso de aprendizado.

Para tanto, a Escola Estadual Padre Dehon, através do grupo de estudo Gestar II, visa promover ações que coloquem a leitura, escrita e análise lingüística em destaque através do gênero textual foco de estudo.


FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA


A escola possui um papel primordial na formação de indivíduos conscientes da ampla atividade lingüística, atentando não só para textos verbais como para os não-verbais.

Em geral, as aulas de Língua Portuguesa tem assumido uma concepção de língua tradicionalista, priorizando o ensino gramatical, esquecendo de contextualizar e aplicar os diversos tipos de gêneros textuais, sem dar relevância aos processos interativos e de construção do conhecimento que os mesmos podem proporcionar.

O estudioso MARCUSCHI (2006) elucida que:


Os gêneros textuais são os textos que encontramos em nossa vida diária e que apresentam padrões sócio-comunicativos característicos definidos por composição funcionais, objetivos enunciativos e estilos concretamente realizados na interação de forças históricas, sociais, institucionais e técnicas. (p. 99).


Partindo dessa definição, cabe ao docente explorá-los em sala de aula, de forma dinâmica e dialógica, além de desmitificar o tradicionalismo e ranço oriundo da prática docente restrita ao ensino da norma culta.


OBJETIVO


Proporcionar situações de aprendizagens significativas através do gênero textual- Histórias em Quadrinhos (HQs), de modo a despertar nas aulas de Língua Portuguesa o gosto e o prazer pela língua materna.


OBJETIVOS ESPECÍFICOS


Viabilizar o estudo das Histórias em Quadrinhos, ressaltando a leitura, escrita e análise lingüística;
Propor alternativas de atividades para serem trabalhadas em sala de aula com a utilização das Histórias em Quadrinhos.



METODOLOGIA


1º MOMENTO

O projeto prevê inicialmente que a linguagem de histórias em quadrinhos seja trabalhada em sala de aula, afim de que os alunos se familiarizem com o tipo de literatura e conheça suas principais características antes de iniciar a criação, através importância do referido gênero textual em exercícios de interpretação textual.


2º MOMENTO

Roda literária de história em quadrinhos.


3º MOMENTO

Criar uma história em quadrinhos obedecendo a uma seqüência de diálogo, com personagem e fala.


4º MOMENTO

Demonstrar as habilidades criativas adquiridas nas histórias em quadrinhos através de apresentações das histórias criadas.


ORIENTAÇÕES DIDÁTICAS

· Dividir a sala em equipes;
· Distribuir papel, hidrocor, lápis de cor e tesoura;
· Orientar as equipes para criação de história em quadrinhos.

AVALIAÇÃO


A avaliação será realizada durante todo o processo, pois dela dependem os passos seguintes e os ajustes, aproveitando as próprias situações de aprendizagem.



REFERÊNCIAS


CALAZANS, Flávio. História em Quadrinhos na Escola. 2 ed. São Paulo: Paulus, 2005.


MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção Textual: análise de gêneros e compreensão. 4 ed. Recife: Departamento de Letras/UFPE, 2006.


Disponível em: < http://www.marel.pro.br/onomat.htm> Acesso em 25 maio 2008.


Disponível em: < http://blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br> Acesso em 25 maio 2008.














ANEXO


























ATIVIDADES

ESCOLA PADRE DEHON

DISCIPLINA: LÍNGUA PORTUGUESA

PROFª LUCIANA MOURA

Fonte: Livro Linguagem: criação e interação. Cássia Garcia de Souza e Márcia Paganini Cavéquia

ESCOLA PADRE DEHON

LÍNGUA PORTUGUESA

PROFª LUCIANA MOURA

Escreva os personagens do texto:__________________________________________________

Descreva a cena:_______________________________________________________________

_____________________________________________________________________________

Observe as características de Dalila. Como ela se apresenta através do olhar?

__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

O que Romeu quis dizer com a expressão “SORTE!”. Você concorda?

_______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

A atitude de Romeu em relação a Dalila revela:

( ) compaixão ( ) companheirismo ( ) insensibilidade ( ) revolta

Fonte: Matrizes de Referências, temas, tópicos e descritores – Prova Brasil 2009.

Escola Estadual Padre Dehon

Disciplina: Língua Portuguesa

Projeto História em Quadrinhos

Prof.ª Luciana Moura

Nome:___________________________________________________________Série_________


História em Quadrinhos escolhida:_________________________________________________

Autor:________________________________________________________________________

Título da história:_______________________________________________________________

Personagem ou personagens preferido (s)___________________________________________

_____________________________________________________________________________

Gostei de ler porque____________________________________________________________

(__) Boas ilustrações (__) Más ilustrações (__) Interessantes (__) Sem interesse.

Aconselha este HQ a uma amigo (a) (__) Sim (__) Não.


Escola Estadual Padre Dehon

Disciplina: Língua Portuguesa

Projeto História em Quadrinhos

Prof.ª Luciana Moura

Nome:___________________________________________________________Série_________


História em Quadrinhos escolhida:_________________________________________________

Autor:________________________________________________________________________

Título da história:_______________________________________________________________

Personagem ou Personagens preferido (s)___________________________________________

_____________________________________________________________________________

Gostei de ler porque____________________________________________________________

(__) Boas ilustrações (__) Más ilustrações (__) Interessantes (__) Sem interesse.

Aconselha este HQ a uma amigo (a) (__) Sim (__) Não.


Escola Estadual Padre Dehon

Disciplina: Língua Portuguesa

Projeto História em Quadrinhos

Prof.ª Luciana Moura

Nome:___________________________________________________________Série_________


História em Quadrinhos escolhida:_________________________________________________

Autor:________________________________________________________________________

Título da história:_______________________________________________________________

Personagem ou Personagens preferido (s)___________________________________________

_____________________________________________________________________________

Gostei de ler porque____________________________________________________________

(__) Boas ilustrações (__) Más ilustrações (__) Interessantes (__) Sem interesse.

Aconselha este HQ a uma amigo (a) (__) Sim (__) Não.





REGISTRO DAS ATIVIDADES



Acervo e proposta metodológica do projeto.



Roda literária de história em quadrinhos.










Desenvolvimento das atividades.
Os novos gêneros e a escrita da Internet

GÊNEROS TEXTUAIS E LINGUAGEM DA INTERNET

Everton Pereira Santos[1]

Já é certo que as pessoas, hoje, não vivem sem acessar a Internet. Nem que seja uma vezinha por dia, para olhar os scraps. E parece mesmo que o scrap virou a mais moderna forma de se comunicar, mas não esquecendo os gêneros digitais existentes, como o MSN Messenger (o mais popular dos "messengers"), o e-mail (pioneiro nessa forma de comunicação virtual), os blogs e até os flogs.

É claro que a Internet serve para muitas outras funcionalidades, mas a comunicação é a principal característica de todos os recursos da rede. E uma vez que se fale de comunicação, o scrap, como já dito, é a principal forma de trocar mensagens na Internet, por intermédio do Orkut.

Ao se fazer uma análise da funcionalidade do scrap, percebemos que ele é uma forma evoluída do bilhete comum e, como tal, carrega as mesmas funções do seu antepassado, mas ainda não inutilizado, bilhete. Serve para comunicar algo a alguém, de forma curta e prática.

E quando se fala nesse tipo de evolução, devemos conhecer o que são os gêneros textuais, suas evoluções e adaptações.

Gêneros textuais são tipos estáveis de enunciado que refletem as condições específicas e as finalidades de utilização da linguagem. Em outras palavras, é o nome que se dá a cada tipo de enunciado, como: bilhete, redação, carta, scrap, e-mail, artigo científico (gêneros textuais escritos), palestra, notícia televisiva, rádio-novela (gêneros textuais falados), piada, canção, anedota (gêneros textuais escritos e falados) etc.

Luiz Antônio Marcuschi, pesquisador da área de gêneros textuais e professor da Universidade Federal de Pernambuco, observa que o surgimento de novos gêneros textuais nada mais é que uma adaptação dos gêneros às tecnologias encontradas atualmente. O scrap é, então, um gênero textual que deixou de ser bilhete para se transformar no que é hoje. Marcuschi observa ainda que a depender de onde o texto seja inserido, ele será um ou outro gênero textual.

Nessa adaptação a essas tecnologias, a função de deixar uma mensagem para alguém ficou mais dinâmica, pois o scrap permite a resposta imediata do recado e, mais recentemente, o usuário que estiver conectado ao Orkut pode saber quando alguém o manda uma mensagem, através de um quadro de avisos que aparece no canto inferior da janela.

Assim como a função do bilhete é deixar uma pequena mensagem para alguém, o scrap mantém tal característica, nos levando a outra reflexão.

Nas conversas de internet e nas mensagens do orkut, observa-se, já há algum tempo, o surgimento do Internetês, que nada mais é que uma forma específica de se comunicar, cuja característica principal é a simplificação de palavras.

A linguagem da internet reflete a "lei do menor esforço" praticada na linguagem oral. O uso de palavras como "pq", "vc", "kd", "tb", "hj", "fds", "flw", demonstram essa forma de simplificação das palavras.

Existem também formas acrescidas de palavras, que não refletem a lei supracitada, mas demonstram a capacidade de criação dos internautas e uma necessidade de manipular a língua portuguesa a fim de dar características próprias ao que se fala na internet. Tais palavras são, por exemplo: "naum", "amow", "tah", "jah", "eh" etc.

Vê-se também formas exageradas de se expressar o que se quer dizer, como por exemplo: "amoowwww", "bejãooooOoOoOoO", ou frases que requerem uma maior análise para que se entenda o significado, como: "MAR É DOJXA VISSE?" cujo significado seria: "mas é doida, viu?". Aqui no Brasil, para alguns, esse tipo específico de linguagem é chamada de miguxês.

Na linguagem da Internet, existem ainda duas formas de comunicação que são bastante utilizadas pelos internautas: o smile e as risadas onomatopaicas.

O smile, ou emoticon, expressa as emoções das pessoas que estão utilizando a comunicação. Alguns exemplos comuns são: :) , :( , :P , 8-), XD , :| , ¬¬ , #-D etc. São variadas as formas de smile que se encontram hoje.

As risadas representam as onomatopéias de risadas normais, e algumas bastante anormais. São elas "hehehe", "rsrsrsrsrs", "kkkkkk" e, algumas novas "auhuhauhauha", "ahuhusahusahuauhs", "heaoueahaoeuah" etc. E, ainda, a risada padrão importada da língua inglesa, já simplificada "LOL", que significa "Laughing Out Loud".

Diante dessa linguagem nova que o scrap apresenta, o jovem, principalmente, pois este é quem está em formação lingüística, deve se preocupar em não utilizar o internetês em textos onde a norma culta é necessária, como redações, cartas formais, provas etc.

Há teorias lingüísticas que dizem que a língua sofre mutações diariamente. A linguagem oral sofre essas alterações dia-a-dia e é mais perceptível, pois não há regras no que chamamos de português não-padrão, que é a linguagem que utilizamos diariamente, sem se preocupar com as normas do português padrão.

Mas ao contrário da linguagem oral, a escrita ainda se preocupa com as normas, porque ela, a escrita, evolui menos que a oral. Claro que a linguagem da Internet vem derrubando isso aos poucos, criando neologismos e provocando uma verdadeira mutação lingüística. Mas ainda deve-se atentar às maneiras de como escrever o texto. Existe na Internet a liberdade para simplificar as palavras e até criar outras novas, porque esse tipo específico de linguagem reproduz a linguagem oral, o português não-padrão.

Portanto, deve-se usufruir do Internetês, separando-o dos lugares onde a norma culta ainda é necessária. Cada gênero textual carrega suas próprias características, inclusive no que diz respeito a que linguagem utilizar, ou não. Seria muito estranho vermos um scrap começando com "à Vossa Senhoria" ou finalizando com "Atenciosamente". O internetês tem lugar próprio para ser utilizado, assim como o tem o português padrão. Saber utilizar cada um em seu lugar é que faz de cada pessoa uma boa usuária da língua portuguesa.

Uma boa dica, para concluir, é conhecer os gêneros textuais e perceber que tipo textual e que tipo de linguagem está sendo usado em um ou em outro gênero. Desse jeito, fica mais fácil produzir textos para fins específicos e, é claro, pratica-se a leitura de uma forma geral.



[1] Aluno do Curso de Letras Português-Inglês da Universidade Federal de Sergipe
Mestres: espécie em extinção1


Salvem nossos professores de Matemática, Química, Física, Geografia, História... O desencanto afeta o ensino público, ameaça a preservação da carreira e compromete a educação das gerações futuras.

Por Cida de Oliveira


Alguns alunos do ensino médio em escolas estaduais da Grande São Paulo tiveram seu final de ano letivo marcado por depoimentos ao Ministério Público. Em outubro, a promotora de Justiça Fernanda Leão de Almeida pediu abertura de inquérito para apurar as causas da falta de professores de diversas disciplinas ao longo de vários meses. A denúncia foi feita pela organização não-governamental Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes (Educafro), mantenedora de cursos pré-vestibulares. “Constatamos que faltam professores em mais de 200 escolas da Grande São Paulo”, diz o frei Davi Raimundo dos Santos, coordenador da entidade, que fez uma pesquisa para entender por que chegam alunos cada vez menos preparados ao cursinho. A falta de aulas chegou ao ponto de, em agosto passado, a Secretaria de Educação instituir por meio de portaria uma espécie de força-tarefa. Escolas sujeitas a não cumprir a carga horária mínima exigida pela lei poderiam funcionar em até três turnos diurnos e seis dias semanais a fim de recuperar o atraso.

Segundo egressos do ensino médio da Escola Estadual Engenheiro Francisco Prestes Maia, em São Bernardo do Campo, ABC Paulista, desde a 8ª série faltam muitos professores. Os alunos ficavam parte do tempo no pátio ou iam para casa mais cedo quase todos os dias. A situação chegou a melhorar mas, no ano passado, voltou a piorar. Turmas do 3º colegial ficaram três meses sem aulas de História, Matemática e Geografia. Mesmo assim, fizeram provas e alguns chegaram a tirar 10. Segundo uma fonte que não quis se identificar, a Escola Estadual Professora Marie Nader Calfat, em Diadema, ficou sem professor de Física durante praticamente todo o ano de 2006.

A carência de professores não se restringe ao estado de São Paulo e, se já afeta o desempenho do ensino hoje, é prenúncio de crise mais grave no futuro se o quadro não for revertido. Uma pesquisa da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), feita em 2003, ouviu 737.170 profissionais, em dez estados – Alagoas, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Tocantins. Mais da metade da base pesquisada (53%) tem entre 40 a 59 anos de idade e tempo de serviço entre 12 e 18 anos. Ou seja, em pouco mais de uma década – levando-se em conta que a esmagadora maioria é formada por professoras, que podem se aposentar aos 25 anos de serviço –, quase metade do atual contingente de profissionais da educação poderá estar fora da sala de aula. Apenas 3% dos educadores são jovens entre 18 e 24 anos – muito pouco, portanto, para cobrir o desfalque anunciado.

Baseado no censo escolar, um técnico do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, do Ministério da Educação, estimava, também em 2003, que o déficit de mestres de 5ª a 8ª séries e de ensino médio pode chegar a 700 mil. As projeções são grosseiras porque o censo refere-se aos cargos, e não ao número de profissionais – isso faz diferença porque é comum um mesmo professor ocupar mais de um cargo, como dar aulas em duas escolas. Mas não deixam de ser um alerta. O mesmo levantamento mostra que a demanda é maior por licenciados em Matemática, Física, Química e Biologia.

Carlos Ramiro de Castro, presidente da Apeoesp, o sindicato dos professores da rede estadual de São Paulo, confirma que as disciplinas científicas são mais carentes de pessoal, mas observa que já começam a faltar professores de Geografia. “Preocupa também que a busca por cursos de licenciatura é cada vez menor”, salienta.


Êxodo

Além das aposentadorias e do baixo interesse por cursos de formação para a sala de aula, há outro agravante: o êxodo de docentes para escritórios, laboratórios, estabelecimentos comerciais, repartições públicas e outros setores bem longe do giz e da lousa.

Filha e sobrinha de professores, Rosângela Lucas dá 33 aulas semanais de Matemática numa escola em Santa Bárbara d’Oeste, cidade da região de Campinas (SP). À noite e de manhã. Ganha 1.500 reais por mês e, aos 42 anos, sente-se desestimulada com a falta de valorização da profissão e de condições de trabalho: classes superlotadas, materiais didáticos ultrapassados e falta de tempo para se aperfeiçoar. Por isso, estuda para concursos em outros setores do serviço público. “Existem vagas em tribunais pagando o dobro do que eu ganho para quem tem só até o ensino médio”, diz Rosângela.

Há dez anos, Antonio Feitosa Teles abandonou as aulas. Técnico judiciário do Tribunal Regional do Trabalho, em Recife (PE), esse ex-professor de História de 48 anos ainda guarda saudade da sala de aula. “Lecionar sempre foi meu sonho. Nunca tinha pensado em exercer outra profissão.” O encantamento foi desfeito logo que ingressou no Magistério, aos 20 anos.

“Mesmo dando aulas na rede pública e privada, dia e noite, pagava combustível do carro com cheque pré-datado. Vivia sobrecarregado, cansado e frustrado. Hoje trabalho metade do que trabalhava e ganho de quatro a cinco vezes mais”, conta o ex-professor, que se formou em Direito, acabou de passar na primeira fase do exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e se prepara para segunda.

A concorrência com as aulas no ensino superior também é outra ameaça para os níveis básicos. Para o biólogo Carlos Eduardo Amancio, 29 anos, mestrando em Botânica, a escola exige muito e retribui pouco: “O jeito é investir na formação para buscar um lugar na universidade, onde se paga mais”, diz. Depois de lecionar Ciências para alunos de 5ª a 8ª séries durante dois anos, Lagosta, como é conhecido, abandonou o Magistério, que tomava muito do tempo que ele precisava dedicar ao mestrado. “Gosto muito de lecionar, principalmente na rede pública. Mas se for para dar uma aula ruim, sem tempo de preparar, é melhor não dar”, opina. Ele diz que parte do problema poderia ser resolvida se os professores pudessem viver com menos aulas por semana. “Assim, muitos mestrandos ou doutorandos em Química, Física, Biologia ou Matemática poderiam lecionar paralelamente às pesquisas que desenvolvem.”


Fio de esperança

O desfalque de professores que saíram ou estão em busca de outras oportunidades não se resolve facilmente. Além da necessidade de mais recursos, o tempo necessário para a qualificação é bem maior que para a formação de técnicos e funcionários escolares. Entre os estudantes de Matemática, Química, Física e Biologia, muitos estão interessados em ingressar no setor industrial ou de serviços. Pedagogos são assediados por outras áreas, até no próprio serviço público.

O secretário de políticas educacionais da CNTE, Heleno Araújo, conta que recentemente saiu um edital para preenchimento de vaga para pedagogo no Tribunal de Justiça de Pernambuco. Salário de 2.200 reais por uma jornada de 30 horas. “Pelo plano de carreira que temos hoje, até quem tem doutorado não consegue ganhar esse salário como professor”, afirma o dirigente.

A Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, no entanto, não vê desinteresse dos educadores pelo ofício. Baseado nos três últimos concursos para preencher vagas de professores de 5ª a 8ª série e ensino médio, os chamados PEB II, o órgão diz que aumentou o número de candidatos. Há sete anos, 148.398 disputaram 47 mil vagas, algo próximo de 3 candidatos por vaga. Em 2004, foram 248.302 para 48.314 vagas, média de cinco. E no ano passado, havia quase oito candidatos na disputa para cada um dos 5.620 cargos oferecidos. Física e Química são as disciplinas menos procuradas.

Segundo o frei Davi, da Educafro, 60% dos estudantes carentes que freqüentam o cursinho da entidade pretendem estudar Geografia, História e Pedagogia. O interesse no Magistério, segundo ele, deve-se principalmente a questões de sobrevivência: “Com menos concorrência, fica mais fácil conseguir emprego”.

Apesar do desânimo, ainda existem fios de esperança. A estudante Tabata Christine Correa Sartório, de 17 anos, mesmo tendo enfrentado a falta de professores na Escola Estadual Engenheiro Francisco Prestes Maia, em São Bernardo, não se desencantou com a escola pública. Depois do insucesso no vestibular da USP, passou no curso de Pedagogia numa universidade particular. Ela quer se especializar e dar aulas para crianças com deficiência – como a mãe. “Sei que tem muita gente precisando de mim”, acredita Tabata.


Como enfrentar o desalento

O secretário de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), Francisco das Chagas Fernandes, reconhece que o setor passa por problemas, principalmente pela falta de investimentos por décadas seguidas. Para tentar enfrentá-los, o governo acredita em medidas como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) e a Universidade Aberta do Brasil.

A emenda que coloca o Fundeb na Constituição foi promulgada no dia 19 de dezembro e aguarda regulamentação. Uma vez implementado, poderá beneficiar 48 milhões de estudantes – da pré-escola ao ensino médio e educação de jovens e adultos. Deve movimentar 43 bilhões de reais no primeiro ano e, em quatro anos, chegar a 56 bilhões. Já a Universidade Aberta, formada por instituições públicas de ensino, levará cursos de nível superior aos municípios brasileiros onde não há faculdades.

Para Cleidimar Barbosa, da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, faz diferença para o professor ou aspirante saber que terá oportunidade de se aperfeiçoar. “Com a graduação, quem tem nível médio vai ganhar um pouco mais. Com especialização, aumenta 15%. Haverá outros 15% se fizer mestrado e outros 15% com doutorado. Está longe de ser o ideal, mas já é um começo”, avalia. De acordo com a sindicalista, o piso salarial para todos os professores brasileiros, atualmente em discussão – uma das reivindicações da categoria que ganhou mais força depois da pesquisa que apontou para a falta de professores –, deve ser outro passo em direção ao sonhado resgate da qualidade do ensino público.
Luiz Antônio Marcuschi (UFPE/CNPq - 2003)

lamarcuschi@uol.com.br

(Versão provisória de 18/05/2003)


1. Precauções


Este ensaio pretende ser uma pequena contribuição para a análise do suporte de gêneros textuais. A tese central é a de que todo gênero tem um suporte, mas a distinção entre ambos nem sempre é simples e a identificação do suporte exige cuidado. Para isso é necessário definir categorias e considerar aspectos limítrofes na relação gênero-suporte. Como aqui nada é conclusivo, estas sugestões não passam de um convite à discussão e aconselham cautela.1


Alimenta esta análise a convicção de que aqui se oferece um conjunto de problemas relevantes para a melhor compreensão do funcionamento dos próprios gêneros textuais. Como ressaltado nas observações finais, o importante, no caso, é que dispomos de elementos empíricos para comprovar a validade das posições defendidas, pois os gêneros se dão materializados em linguagem e são visíveis em seus habitats. Contudo, a comprovação não se dá na observação a olho nu e sim com base em categorias. Assim, esta abordagem visa a fornecer precisamente algumas categorias para a análise e mostra como podem ser usadas.


Não se trata de fazer uma classificação de suportes, mas de analisar como eles contribuem para seleção de gêneros e sua forma de apresentação. Seria interessante observar como desde a antiguidade os suportes textuais variaram, indo das paredes interiores de cavernas à pedrinha, à tabuleta, ao pergaminho, ao papel, ao outdoor, para finalmente entrar no ambiente virtual da Internet. Mas este é um roteiro de análise que não será aqui percorrido. Com efeito, nossa sociedade foi das inscrições rupestres à pichação urbana, um caminho curioso que sugere inúmeras interpretações e não necessariamente uma evolução.


Uma observação preliminar pode ser feita a respeito da importância do suporte. Ele é imprescindível para que o gênero circule na sociedade e deve ter alguma influência na natureza do gênero suportado. Mas isto não significa que o suporte determine o gênero e sim que o gênero exige um suporte especial. Contudo, essa posição é questionável, pois há casos complexos em que o suporte determina a distinção que o gênero recebe. Tome-se o caso deste breve texto:

“Paulo, te amo, me ligue o mais rápido que puder.

Te espero no fone 55 44 33 22. Verônica .”

Se isto estiver escrito num papel colocado sobre a mesa da pessoa indicada (Paulo), pode ser um bilhete; se for passado pela secretária eletrônica é um recado; remetido pelos correios num formulário próprio, pode ser um telegrama; exposto num outdoor pode ser uma declaração de amor. O certo é que o conteúdo não muda, mas o gênero é sempre identificado na relação com o suporte. Portanto, há que se considerar este aspecto como um caso de co-emergência, já que o gênero ocorre (surge e se concretiza) numa relação de fatores combinados no contexto emergente.


Assim, a discussão sobre o suporte nos leva a perceber como se dá a circulação social dos gêneros. Neste caso vamos desde certos locais como as bibliotecas que não são suportes, mas contém inúmeros suportes textuais, até um outdoor que é um suporte que em geral contém um gênero de cada vez e revela uma certa especialização em relação ao gênero suportado. Por outro lado, seria necessário saber como distinguir um canal ou meio de condução de um serviço para não confundi-los com suporte ou gênero. Aqui vamos desde o telefone (canal), passando pela rede da Internet (serviço), até um pára-choque de caminhão (suporte de um gênero). Tudo isso faz-nos cautelosos na abordagem da questão e exige definição das unidades de nossa análise.


Como última observação cautelar, gostaria de frisar que neste ensaio pouco se dirá a respeito dos suportes de gêneros textuais orais por falta de condições para equacionar a questão. Seguramente, a ninguém ocorre que a boca seja um suporte, mas algum tipo de suporte para os gêneros orais deve haver, já que eles não estão soltos. Acima ficou mais ou menos insinuado que a secretária eletrônica poderia ser vista como suporte de recados, mas isto está longe de ser consensual. Talvez, no caso da oralidade, sejam os próprios eventos os suportes, por exemplo, um congresso acadêmico seria o suporte de conferências e comunicações orais e a mesa-redonda seria o suporte de exposições temáticas.2 No entanto, seguramente não podemos tomar o disco de vinil, o CD-Rom, a fita cassete, as gravações em geral como suportes de gêneros orais. Estes são locais de armazenamento ou meios de transporte e o acesso às falas não é direto. Neste sentido tenho dúvidas também com a secretária eletrônica, se a consideramos como um repositário da mensagem. Nem as transcrições impressas, fruto de gravações orais são suportes. Como nada sei sobre estes assuntos, me reportarei apenas ocasionalmente aos suportes orais, por exemplo, o telefone e o rádio, sem fazer análises detidas.


2. Categorias analíticas


Antes de tratar a questão do suporte dos gêneros textuais propriamente, parece importante definir alguns aspectos preliminares referentes às categorias de análise. Há aspectos centrais no tratamento dos gêneros e alguns outros subsidiários para a análise do suporte. Entre as categorias centrais, sem entrar em escolas teóricas de maneira mais explícita, estão as que aqui serão sumariamente definidas sem maiores discussões por falta de espaço.


Estas funcionam aqui como categorias de análise e, em certos momentos, permitem construir o fenômeno investigado. Entre as categorias centrais a que me refiro incluiria as abaixo listadas, trazendo algumas no final da lista que podem servir para delimitar as questões em algum momento.


2.1 Texto

Trata-se, num primeiro momento, do objeto lingüístico visto em sua condição de organicidade e com base em seus princípios gerais de produção e funcionamento em nível superior à frase e não preso ao sistema da língua; é ao mesmo tempo um processo e um produto, exorbita o âmbito da sintaxe e do léxico, realiza-se na interface com todos os aspectos do funcionamento da língua, dá-se sempre situado e envolve produtores, receptores e condições de produção e recepção específicas. Em essência, trata-se de um evento comunicativo em que aspectos lingüísticos, sociais e cognitivos estão envolvidos de maneira central e integrada, como observou Beaugrande (1997).


2.2. Discurso

De uma maneira geral, o discurso diz respeito à própria materialização do texto e é o texto em seu funcionamento sócio-histórico; pode-se dizer que o discurso é muito mais o resultado de um ato de enunciação do que uma configuração morfológica de encadeamentos de elementos lingüísticos, embora ele se dê na manifestação lingüística. É uma materialidade de sentido. De certo modo a opacidade histórica e lingüística do texto é explicada por uma teoria do discurso, da língua, do inconsciente e da ideologia, articulados sistematicamente. Podemos adotar a posição de Lorenza Mondada (1994:23) quando dá a seguinte definição de discurso:

“No que nos concerne [...] nos utilizaremos do termo discurso como um hiperônimo, compreendendo o texto como a interação, reenviando a um objeto empírico, selecionado ou transcrito para a análise, indissociável do contexto que ele contribuiu para forjar, e caracterizado não pelas determinações exteriores mas pelas dimensões que o próprio discurso marca reflexivamente como pertinentes. O discurso é o lugar da observabilidade da língua em sua atualização num contexto empírico.”


2.3. Domínio discursivo (esfera de atuação humana)

Entende-se aqui como domínio discursivo uma esfera de atividade humana, como lembrou Bakhtin (1979). Não é um princípio de classificação de textos e indica instâncias discursivas, tais como: discurso jurídico, discurso jornalístico, discurso religioso, discurso militar, discurso acadêmico etc. Não abrange um gênero em particular, mas dá origem a vários deles, constituindo práticas discursivas dentro das quais podemos identificar um conjunto de gêneros textuais que às vezes lhe são próprios ou específicos como práticas ou rotinas comunicativas institucionalizadas e instauradoras de relações de poder etc. Neste caso, Domínio Discursivo distingue-se da noção de formação discursiva, tal como proposta por Foucault.


2.4. Gênero (textual, de texto, discursivo, do discurso)

Trata-se de textos orais ou escritos materializados em situações comunicativas recorrentes. Os gêneros textuais são os textos que encontramos em nossa vida diária com padrões sócio-comunicativos característicos definidos por sua composição, objetivos enunciativos e estilo concretamente realizados por forças históricas, sociais, institucionais e tecnológicas. Os gêneros constituem uma listagem aberta, são entidades empíricas em situações comunicativas e se expressam em designações tais como: sermão, carta comercial, carta pessoal, romance, bilhete, reportagem jornalística, aula expositiva, notícia jornalística, horóscopo, receita culinária, bula de remédio, lista de compras, cardápio de restaurante, resenha, edital de concurso, piada, conversação espontânea, conferência, e-mail, bate-papo por computador, aulas virtuais e assim por diante. Como tal, os gêneros são formas textuais escritas ou orais bastante estáveis, histórica e socialmente situadas.


2.5. Tipo (textual, de texto, de discurso)

Esta noção designa muito mais modalidades discursivas ou então seqüências textuais do que um texto em sua materialidade. O tipo textual define-se pela natureza lingüística de sua composição {modalidade, aspectos sintáticos, lexicais, tempos verbais, relações lógicas, estilo, organização do conteúdo etc.}. Em geral, os tipos textuais abrangem um número limitado de categorias conhecidas como: narração, argumentação, exposição, descrição, injunção. Quando predomina uma característica tipológica num dado texto concreto dizemos que esse é um texto argumentativo ou narrativo ou expositivo ou descritivo ou injuntivo. Os tipos textuais constituem modos discursivos organizados no formato de seqüências estruturais sistemáticas que entram na composição de um gênero textual. Tipo e gênero não formam uma dicotomia, mas se complementam na produção textual.


2.6. Evento discursivo

Esta noção é de difícil definição. Diz respeito ao próprio evento em questão, tal como por exemplo um congresso, ou então um debate televisivo, sendo que neste caso se recobriria com o gênero. Assim, uma aula é a um só tempo um evento discursivo e um gênero, mas o aspecto da observação é diverso. O evento caracteriza-se como uma grandeza sócio-interativa vista sob seu aspecto de realização contemplando os atores e toda a organização. Um jogo de futebol é um evento assim como uma consulta médica é um evento, mas no caso do jogo de futebol não há um foco discursivo e na consulta médica sim. Os atores sociais e os modos de realização são outros. Como a noção de evento é complexa de se definir, deixo-a para mais adiante.


2.7. Serviço

Embora esta não seja uma unidade de análise, deve ser considerada como uma categoria importante para distinguir entre suporte e serviço em alguns casos críticos, como no e-mail e na Internet, por exemplo. O caso dos correios e mesmo da Internet, tanto podem ser um suporte como um serviço a depender do aspecto da observação. Já não é tão simples saber se a mala-direta é um serviço, ou um suporte ou até um gênero como alguns já a classificaram. Defendo que a mala-direta é um serviço pelo qual se enviam correspondências de vários gêneros, publicidades e assim por diante. Tomamos aqui como serviço um aparato específico que permite a realização ou a veiculação de um gênero em algum suporte. Assim, os correios permitem a remessa de cartas, por exemplo; a Internet permite a remessa de informações eletrônicas e ao mesmo tempo a realização e instalação de páginas pessoais como suportes de gêneros diversos.


2.8. Canal

Tecnicamente, o canal seria o meio físico de transmissão de sinais; este é o caso do rádio, da televisão e do telefone quando vistos como emissora ou aparelho operando como canal de transmissão. Mas em certos casos o canal pode ser confundido com o suporte dos sinais transmitidos por operarem como lócus de fixação. Pode-se dizer que o canal se caracteriza como um condutor e o suporte como um fixador.3


2.9. Instituição

Este é o caso de escola, igreja, quartel, universidade, tribunal etc., que podem ser vistos como instituições, mas não como suportes. As instituições podem constituir em alguns casos o que se poderia chamar de estruturas de formação discursiva ou algo parecido (não no sentido foucaultiano).


2.10. Grandes continentes

Tomo como grande continentes os ambientes e os locais que servem de grandes “armazéns” ou locais de concentração de materiais impressos ou orais. Entre estes continentes estariam: (a) Bibliotecas – comporta tanto livros como outros suportes textuais; a biblioteca não pode ser tomada como um suporte, já que seria inviável uma análise neste sentido. A função de uma biblioteca é guardar obras. (b) Livrarias – seguramente, uma livraria contém livros e outros suportes, mas de modo diverso que uma biblioteca, já que na livraria os livros estão à venda e não para consulta ou retirada para consulta. Mas a livraria também não é um suporte. (c) Papelarias – aqui estamos novamente no mesmo caso das livrarias, mas com algumas características diversas. Não temos um suporte. (d) Editoras – este é outro caso de uma situação em que não se tem um suporte e sim um tipo de produtora de suportes. (e) Escritórios – ali guardam-se os gêneros textuais e se consome textos, mas este não é um suporte. (f) Museus – também neste caso não temos um suporte, embora aqui já estejamos entrando num caso bastante complexo e que se torna quase-limite para a questão.


Este leque categorial leva-me introduzir a noção de suporte para discutir com mais calma a questão a seguir. Aqui introduzo uma noção vaga da questão para que o quadro fique completo. Suporte textual tem a ver centralmente com a idéia de um portador do texto, mas não no sentido de um meio de transporte ou veículo, nem como um suporte estático e sim como um locus no qual o texto se fixa e que tem repercussão sobre o gênero que suporta. De importância neste caso é a questão de saber qual é o grau de dinamismo do suporte. Admitimos que ele não é passivo e tem relevância no próprio gênero como tal, já que um texto em um ou outro lugar recebe influência desse lugar em que se situa. O difícil será responder a esta indagação: dada sua natureza, qual a contribuição do suporte para o funcionamento do gênero? Além disso, há a questão central afirmada logo na abertura deste ensaio: todo gênero textual tem um suporte. Será que isso se aplica de maneira universal aos gêneros orais?


Em conclusão a este item o gráfico a seguir é uma tentativa de permitir uma visão integrada de como se comportam estas categorias que operariam na análise para identificação do suporte.


QUADRO GERAL DAS CATEGORIAS ANALÍTICAS





3. Por uma noção de suporte


como lembrado, acha-se em seus inícios a discussão a respeito do suporte dos gêneros. Essa situação é curiosa quando se observa que todos os textos ancoram em algum suporte. O fato já poderia ter sido alvo de análises mais acuradas. No entanto, não está claro o que seja um suporte textual. Seguramente a noção de suporte não pode ser tomada no sentido que a expressão recebe nos dicionários de língua. Por exemplo, de acordo com o Dicionário Aurélio, suporte é “aquilo que suporta ou sustenta alguma coisa”; ou então “material que serve de base para a aplicação de tinta, esmalte, verniz etc.” ou no caso de “suporte de impressão: Qualquer material (papel, cartão etc.) que recebe a impressão de fôrmas nas máquinas de imprimir”. Já o Dicionário Houaiss traz em uma de suas acepções ligada à rubrica ‘documentação’, o seguinte para ‘suporte’: “base física (de qualquer material, como papel, plástico, madeira, tecido, filme, fita magnética etc.) na qual se registram informações impressas, manuscritas, fotografadas, gravadas etc.”


Essas definições, embora empiricamente corretas, não são suficientes para nossa análise e é necessário ir um pouco além. Assim, a tentativa será sugerir uma acepção de suporte que sirva para os propósitos da análise do gênero.


Intuitivamente, entendemos aqui como suporte de um gênero um locus físico ou virtual com formato específico que serve de base ou ambiente de fixação do gênero materializado como texto. Numa definição sumária, pode-se dizer que suporte de um gênero é uma superfície física em formato específico que suporta, fixa e mostra um texto.


A idéia aqui expressa comporta três aspectos:

suporte é um lugar físico ou virtual
suporte tem formato específico
suporte serve para fixar e mostrar o texto.
Com (a) supõe-se que o suporte deve ser algo real (pode ter realidade virtual como no caso do suporte representado pela Internet). Esta materialidade é incontornável e não pode ser prescindida. Com (b) admite-se que os suportes não são informes nem uniformes, mas sempre aparecem em algum formato específico, tal como um livro, uma revista, um jornal, um outdoor e assim por diante. Além disso, o fato de ser específico significa que foi comunicativamente produzido para portar textos e não é um portador eventual. Com (c) admite-se que a função básica do suporte é fixar o texto e assim torná-lo acessível para fins comunicativos. Mas como o suporte tem um formato específico e é convencionalizado, ele pode ter contribuições ao gênero. Contudo, isto é problemático, pois também se pode dizer que os gêneros são ecológicos, no sentido de que desenvolvem nichos ou ambientes de realização mais adequados, seja para se fixarem ou circularem. Seria interessante analisar a hipótese de que os gêneros têm preferências e não se manifestam na indiferença a suportes.


Com respeito ao aspecto (a), me foi feita a pergunta sobre qual seria o suporte dos textos escritos no ar com colunas de fumaça por aviões, em dias comemorativos, por exemplo.4 Os gêneros realizados nestes textos seriam “faixa comemorativa”, “poema” e outros, quanto a isso não haveria dúvidas. Quanto ao suporte, diria que neste caso é a nuvem de fumaça e não o ar ou o céu como um todo, nem a atmosfera terrestre. Trata-se de uma materialidade, isto é, a fumaça sustentada pelo ar, já que é mais leve do que ele. Assim é o caso de um outdoor que serve de suporte para uma publicidade, mas está suspenso num cavalete, o que equivale ao ar que sustenta a nuvem de fumaça. Poderia fazer a mesma analogia com a tinta no papel, a qual não é o suporte e sim o material que exibe as letras, palavras e perfaz a escrita.


É muito difícil contemplar o contínuo que aqui surge, pois ele não é discreto e não de pode dizer onde um acaba e outro começa. Tome-se o caso de uma carta pessoal. Pode-se estabelecer esta cadeia:


carta pessoal (GÊNERO) → papel-carta (SUPORTE) → tinta (MATERIAL DA ESCRITA) → correios (SERVIÇO DE TRANSPORTE) ...



Não é fácil estabelecer a mesma cadeia para todos os gêneros, mas isto serve para pensar as unidades componentes dessa cadeia. O suporte firma ou apresenta o texto para que se torne acessível de um certo modo. O suporte não deve ser confundido com o contexto nem com a situação, nem com o canal em si, nem com a natureza do serviço prestado. Contudo, o suporte não deixa de operar como um certo tipo de contexto pelo seu papel de seletividade. Este é um problema altamente complexo ainda não bem-compreendido. Aqui abrimos a discussão sobre qual o papel do suporte na relação com os gêneros e indagamos se ele acarreta alguma conseqüência para o funcionamento dos gêneros. A idéia central é que o suporte não é neutro e o gênero não fica indiferente a ele. Mas ainda está por ser analisada a natureza e o alcance dessa interferência. Um aspecto que vamos discutir adiante, ligado a esta questão, é o problema da reversibilidade de funções que o suporte poderia operar em alguns casos de gêneros que migram para vários suportes.



O mais importante neste caso é distinguir entre suporte e gênero, o que nem sempre é feito com precisão. Eu mesmo, em trabalhos anteriores, havia identificado o outdoor como gênero, o que é feito por vários autores, mas hoje admito claramente que o outdoor é um suporte público para vários gêneros, com preferência para publicidades, anúncios, propagandas, comunicados, convites, declarações, editais. Não é qualquer gênero que aparece num outdoor, pois esse é um suporte para certos gêneros, preferencialmente na esfera discursiva comercial ou política. Este exemplo sugere que se trate o suporte na relação com outros aspectos, tais como: domínio discursivo, formação discursiva, gênero e tipo textual.



A relação entre eles não constitui uma ordem hierárquica, já que não há um sistema de subordinação interna. Veja-se que o jornalismo é um domínio discursivo, ao passo que o jornal é seguramente um suporte e que a ideologia capitalista norte-americana se oferece como uma esfera de formação discursiva bastante nítida, sendo a reportagem jornalística o gênero textual em questão e as seqüências narrativas internas seriam o tipo textual dominante no caso no caso de uma reportagem sobre a Guerra no Iraque publicada no New York Times. Assim, dentro de cada conjunto há distinções claras, embora não se possa estabelecer uma hierarquia. O gráfico a seguir dá uma idéia melhor disto:







Já vimos que todos os textos se realizam em algum gênero e que todos os gêneros comportam uma ou mais seqüências tipológicas e são produzidos em algum domínio discursivo que por sua vez se acha dentro de uma formação discursiva, sendo que os textos sempre se fixam em algum suporte pelo qual atingem a sociedade. Agora podemos indagar se os suportes são veículos dos gêneros. Num certo sentido eles são, mas não podemos confundir o veículo com o canal. Assim, os Correios podem ser um veículo ao modo de um serviço, mas não são um canal nem um suporte para as cartas que transportam. Já a mala direta poderia ser um suporte e um veículo, ao passo que o radio é um veículo ou meio quando olhado na sua condição de “Rádio X” ou “Rádio Y”. Do ponto de vista do suporte, podemos dizer que uma embalagem é um suporte na relação com o rótulo enquanto gênero, mas um envelope não é um suporte na relação com a carta pessoal. Contudo, o envelope é um suporte para o endereço.



4. Formato do suporte e natureza do gênero textual



Duas questões surgem aqui: (a) há alguma relação direta entre o formato específico do suporte e a natureza do gênero que ele fixa? e (b) qual a influência que o suporte pode exercer sobre o gênero? Num certo sentido, as duas indagações se imbricam a ponto de se tornarem uma só. Isto por que se um gênero tem preferência por algum suporte, este suporte será o preferido para a realização daquele gênero, o que equivale a esta questão básica: o suporte interfere no gênero?



Parece importante observar dois aspectos: (a) funções do gênero e (b) formato textual do gênero. Assim, no caso de (a) indaga-se a respeito de possíveis interferências do suporte na função. Já em (b) indaga-se até que ponto o formato do suporte tem influências diretas sobre algum dos processos de textualização tendo em vista sua interferência no processo de recepção. Por exemplo, o fato de um determinado gênero como a publicidade aparecer num outdoor ou numa revista semanal ou numa revista mensal não é indiferente. Uma publicidade numa revista masculina como a Playboy, ou feminina como Vogue, ou na revista de bordo Ícaro ou então em revistas de divulgação semanal como Veja, Istoé ou num jornal como o Diário de Pernambuco, vai ter características diversas sob o ponto de vista da textualização. Por outro lado, considerando (a) pode-se pensar se um poema num livro didático, em um jornal ou num livro de poemas, enquanto suportes diversos, será a mesma coisa. A solução não é simples.




Caso interessante é a questão do editorial que vai variar muito em sua forma de conteúdo e natureza interna se for um editorial de revista semanal, tal como a revista Veja, por exemplo, ou um editorial de jornal diário como no caso da Folha de São Paulo. Sabemos que no jornal o editora traz a posição do jornal sobre um tema candente no dia. Mas na revista o editorial é uma visão geral dos temas da semana. E se formos observar o editorial de uma a revista masculina ou de revistas científicas, cada vez vai ser outra coisa, ou seja, o suporte vai mudar. Será que temos sempre um editorial ou já temos cada vez outro gênero?



Tomemos o caso do livro didático por parecer mais complexo. E neste caso comecemos com o Livro de Língua Portuguesa, que é um caso mais simples do que o Livro de Geografia, por exemplo. Os gêneros de texto que aparecem no livro didático de Português mantém ou não a mesma função original? Sabemos que há quem trate o livro didático como gênero, mas aqui o livro didático será decididamente visto como um suporte, com os argumentos a serem apresentados adiante. Seguramente, o livro didático é um suporte bem diverso do que uma revista semanal. Não só os destinatários e os objetivos do livro didático e da revista semanal são diversos, mas também as esferas de atividade discursiva são outras. Contudo, um dos elementos centrais para esta distinção é a idéia de que o livro didático tem interesses e objetivos específicos na escolha de certos gêneros (busca gêneros adequados a certos objetivos do ensino, visa a uma variação ampla, contempla os mais freqüentes, exemplifica peculiaridades estruturais e funcionais), o que não atinge a estrutura dos gêneros, mas sua funcionalidade imediata no que tange ao interesse e não à função.



Mesmo uma propaganda continua propaganda no livro didático, mas ali ela não serve mais aos propósitos originais e agora opera como exemplo para produzir tais objetivos. Será que se poderia dizer que isto a torna um gênero diferente? Creio que se poderia postular aqui a sugestão de uma reversibilidade de função para o caso dos textos do livro didático. Não se trata de uma reversibilidade de forma, já que esta fica intacta. Como se verá adiante, isto não equivale a uma transmutação do gênero na acepção de Bakhtin, mas a uma reunião de texto num determinado local (suporte). Por isso, o livro didático é um suporte e os gêneros que ali figuram mantém suas funções, embora não de forma direta, já que assumem o propósito de operarem naquele contexto como exemplos para produção e compreensão textual.



Tome-se o caso do testamento de algum Imperador que se acha exposto num museu. Ele continua sendo um testamento ou agora é apenas um documento histórico sem a função de testamento? O museu não é um suporte, mas uma instituição, assim como uma igreja, um quartel ou uma universidade. Seguramente, os textos que circulam aqui ou ali recebem neste momento outra funcionalidade (reversão de funções), mas não deixam de ter suas características formais de gênero preservadas.



Essas questões não foram ainda tratadas em detalhe nem analisadas em suas repercussões sobre os processos de textualização ou sobre elementos constitutivos dos textos como as seleções lexicais e outros. Embora não tenha autonomia, o suporte tem relevância na constituição de alguns aspectos daquilo que transporta ou suporta. Em muitos casos, o suporte é uma espécie de base que porta contextos muito específicos que podem trazer algum tipo de influência. Assim, se um texto sai num jornal ou em um livro ou se está afixado em um quadro de avisos numa parede, isto vai ter diferentes formas de recepção. Adiante farei algumas reflexões sobre uma possível interferência do suporte no sentido, mas a idéia central é que isso parece mais difícil, embora alguns efeitos possam mudar de acordo com o suporte.



Assim, uma listagem de nomes num quadro de avisos gerais ou numa placa comemorativa ou numa caderneta de alunos é algo bem diverso e aparece como um determinado gênero. Por exemplo, no quadro de avisos pode ser a listagem de notas de u ma disciplina, na placa comemorativa pode ser a relação de formandos do ano ou então a relação dos premiados e assim por diante. Neste caso, tanto o quadro de avisos como a placa comemorativa5 servem como suportes. É provável que muitos dos indagados achariam que a placa seria apenas um gênero, mas todos ou quase todos diriam que o quadro de avisos é um suporte.



5. Suporte convencional e incidental



Aspecto a ser considerado com cautela é o que diz respeito à natureza do suporte do ponto de vista de sua constituição comunicativa. Há suportes que foram elaborados tendo em vista a sua função de portarem ou fixarem textos. São os que passo a chamar de suportes convencionais. E outros que operam como suportes ocasionais ou eventuais, que poderiam ser chamados de suportes incidentais, com uma possibilidade ilimitada de realizações na relação com os textos escritos. Em princípio, toda superfície física pode, em alguma circunstância, funcionar como suporte. Vejam-se os troncos de árvores em florestas com declarações de amor ou poemas em suas cascas. Por isso, convém restringir a noção de suportes textuais para o caso dos suportes convencionais. Não obstante isso, vamos analisar outros suportes incidentais até porque ele são freqüentes na vida urbana.



Assim, o corpo humano pode servir de suporte para textos, mas não é um suporte convencional. Hoje está se tornando cada vez mais comum tatuar o corpo com uma imagem, um poema ou uma declaração de amor. O corpo também pode servir para os alunos inscreverem (em especial na perna ou coxa) suas colas para provas ou exames. O rosto de muitos estudantes funciona como suporte para slogans de protesto político, como já se viu muitas vezes. Até corpos de animais como cachorros e cavalos receberam inscrições de protesto. Contudo, não parece razoável que do ponto de vista comunicativo se possa classificar o corpo humano e o livro na mesma categoria de suporte textual, já que este foi concebido como suporte de textos desde o início.6



Hoje em dia ninguém diria que os vasos de barro, as colunatas e os túmulos seriam suportes ideais para a circulação de textos. No entanto, boa parte dos textos fenícios de 2 ou 3 mil anos atrás nos chegaram em vasos e colunatas ou em túmulos e assim por diante. Naquele tempo era mais comum que a circulação da escrita fosse feita nestes suportes e em pedrinhas, tabuletas ou pergaminhos, mas isto devido à limitação de suportes e à pouca veiculação de discursos na forma escrita. Hoje temos outros recursos, tais como o livro, o jornal, a revista, o outdoor e mais modernamente os hipertextos. Todos estes suportes são de modo especial próprios para a fixação dos textos e sua veiculação comunicativa e têm uma feição de suportes prototípicos.



Assim, podemos identificar duas categorias de suportes textuais: (a) a categoria dos suportes convencionais, típicos ou característicos, produzidos para essa finalidade e (b) a categoria dos suportes incidentais que podem trazer textos, mas não são destinados a esse fim de modo sistemático nem na atividade comunicativa regular. A seguir, apresento uma série de exemplos de cada uma destas categorias.



6. Alguns suportes convencionais



Neste momento, adotando a distinção feita acima entre suportes convencionais e suportes incidentais, vou me restringir a elencar alguns suportes convencionais, isto é, que foram desenhados com a função específica de serem suportes. Em seguida, lembro alguns que podem operar como suportes incidentais.



Como a questão ainda é controversa, parece conveniente iniciar a análise dos suportes discutindo a natureza do suporte genérico mais comum de todos que é a folha de papel. Mas não parece que se deve tomar a folha de papel como o suporte do gênero de uma maneira geral, pois se no caso de uma carta pessoal ela seria, já no caso de um livro a página não é o suporte e sim o livro. No livro, a página é uma parte do todo. Se fôssemos tomar o papel impresso como um suporte de uma maneira geral, não teríamos distinções entre livros, revistas, livros didáticos, quadro de avisos e outros como suportes distintos.



No caso de um cartão postal, o suporte é sem dúvida o pedaço de cartolina em que o cartão está impresso. Mas nem por isso vamos tomar a cartolina como um suporte em geral. Claro que para um painel exposto num congresso temos a cartolina como um suporte daquele gênero e o cavalete como suporte da cartolina. Mas não é também sobre esse tipo de cadeia ou contínuo de suportes que aqui se refletirá, pois neste caso corre-se o risco de uma reductio ad absurdum e logo vai haver alguém falando em metassuporte. Assim, não terminaríamos nunca de perguntar quem suporta quem, já que nada está solto no ar, nem mesmo o texto em nuvens de fumaça. Nosso limite de observação é sempre o suporte imediato e não um continuum que pode desviar o olhar para outros fenômenos.



Com base nesta observação preliminar, vejamos vários suportes e suas características. Não se trata de uma classificação nem de um levantamento exaustivo. Neste momento não faço mais do que uma breve incursão pelo tema.



6.1. Livro

Seguramente, todos vamos concordar que o livro não é um gênero textual. Seja ele qual for, desde que visto como livro. Trata-se de um suporte maleável, mas com formatos definidos pela própria condição em que se apresenta (capa, páginas, encadernação etc.). O livro comporta os mais diversos gêneros que se queira. Contudo, podemos ter um livro que ao mesmo tempo realiza apenas um gênero, como no caso do romance ou da tese de doutorado. Nestes casos, distinguimos entre os gêneros textuais romance e tese de doutorado e o suporte textual livro. Trata-se de coisas diversas.7 Tomemos um livro contendo cartas pessoais de alguém. Aquelas cartas já não são mais pessoais desde o momento em que foram publicadas. Passaram a ser documentos públicos e até seu status pode ter mudado se forem cartas de algum escritor. Mas com a divulgação em livro passam a operar como uma obra literária. O problema é que mudou a função e a natureza daqueles textos no gênero carta pessoal. Trata-se de um livro com muitos exemplares de um gênero ou simplesmente um gênero como tal? O livro é neste caso um suporte e o gênero é carta pessoal, por exemplo, se ali estiverem somente cartas pessoais.



Para uma breve reflexão sobre a complexidade do problema, tomemos um livro lançado recentemente, As Boas Mulheres da China, de Xinran (2003). Ali temos uma série de crônicas ou relatos da autora8 como apresentadora de um programa de rádio na China. Trata-se de um livro com um gênero único que são crônicas que foram escritas para aquele livro. Mas no interior do livro encontramos várias cartas que haviam sido remetidas à radialista. Essas cartas estão ali transcritas no decorrer de um relato. São ainda cartas ou já foram transmutadas e fazem parte integrante do relato sem autonomia de carta? No mesmo livro há uma longa entrevista-diálogo com uma universitária. Trata-se de uma entrevista ou faz apenas parente do livro? Ou será uma estratégia da autora ara aquele formato, pois não consta que tenha sido gravada. Há também um comovente relato de uma jovem adolescente molestada sexualmente pelo pai que se apaixona por uma mosca como um ser amado e escreve um diário íntimo sobre a triste situação. Este diário foi parar nas mãos da apresentadora que o publica no livro. Trata-se de um diário ou não mais? Veja-se que a situação é complexa, pois temos um livro operando como suporte de uma série de relatos e estes estão perpassados de vários gêneros que os compõem. Temos ali cartas pessoais, entrevistas, diálogos, diário íntimo, declarações de amor, bilhetes e outros gêneros. Contudo, eles não têm autonomia e figuram como parte de um todo orgânico maior, que é uma obra programada desde sua origem com aqueles elementos.



Em suma, parece que a questão é um tanto artificial, pois um livro é sempre um suporte, sendo que am alguns casos contém um só gênero (um livro de poemas), em outros casos contém muitos gêneros diversos (uma obra com as publicações de um determinado jornal) ou então um único gênero (romance). Em todos os casos o livro é um suporte para os gêneros ou gênero que comporta. O problema parece ser se o livro didático, por exemplo, “engole” ou “transmuta” os gêneros do mesmo jeito que o romance. Vejamos o caso mais de perto.



6.2. Livro didático

Em primeiro lugar, é conveniente considerar que não fazemos uma distinção sistemática entre “livro e “livro didático”, já que se trata de fenômenos similares. Contudo, como há elementos muito específicos do livro didático e uma funcionalidade típica, tratamos a questão em separado, mas todos são livros. Em segundo lugar, seria conveniente considerar que mesmo o livro didático pode ser dividida pelo menos em dois conjuntos: (a) o livro didático de português e (b) o livro didático de disciplinas como geografia, física, matemática, etc. Estes dois conjuntos têm peculiaridades, mas não constituem algo essencialmente diverso.



Tal como foi exposto anteriormente, livro didático é nitidamente um suporte textual, embora a opinião não seja unânime a este respeito. Não obstante os argumentos em contrário, ainda se pode dizer que o livro didático (LD), particularmente o LD de língua portuguesa, é um suporte que contém muitos gêneros, pois a incorporação dos gêneros textuais pelo LD não muda esses gêneros em suas identidades, embora lhe dê outra funcionalidade, fato ao qual denominei reversibilidade de função. Falo aqui em funcionalidade e não função para que se tenha claro este aspecto. Por exemplo, uma carta, um poema, uma história em quadrinhos, uma receita culinária e um conto continuam sendo isso que representam originalmente e não mudam pelo fato de migrarem para o interior de um LD. Não é o mesmo que se dá, por exemplo, no caso de um romance que incorpora cartas, poemas e anúncios, entre outros.



O problema da incorporação dos gêneros no caso do romance, tal como tratado por Bakhtin (1979), diz respeito a uma “transmutação” de gêneros que é efetuada por um gênero secundário ao incorporar outros gêneros. Certamente, Bakhtin nunca teria classificado o livro didático entre os gêneros secundários e sim como um conjunto de gêneros. Aspecto importante é a vasta produção de gêneros tipicamente da esfera do discurso pedagógico, tal como a explicação textual, os exercícios escolares, a redação, instruções para produção textual e muitos outros que se acham no LD. O espaço pedagógico tem muitos outros gêneros que circulam nessa área e não migram para o LD, tais como as conferências, os relatórios, as atas de reuniões etc. Tudo indica, pois, que o LD pode ser tratado como um suporte com características muito especiais.



6.3. Jornal (diário)

O jornal, diário e mesmo o jornal semanal, é nitidamente um suporte com muitos gêneros. Estes gêneros são em boa medida típicos e recebem, em função do suporte, algumas características em certos casos, tal como o da notícia. Aqui situam-se também as cartas do leitor e as notas sociais, entre outros. No jornal, temos gêneros que não aparecem em revistas semanais, como: anúncios fúnebres, convites para missas de sétimo dia, previsões meteorológicas, resumos de filmes, horóscopo diário e assim por diante. Mas há outros comuns com as revistas, como notícias, reportagens, editoriais, receitas culinárias, história em quadrinhos, charge, entrevistas e assim por diante.



6.4. Revista (semanal/mensal)

A revista semanal poderia ser vista no contexto do jornal diário, mas além de conter sensivelmente menos gêneros textuais que o jornal, tem uma peculiaridade no processo de textualização, como se frisou há pouco. Jornais diários e revistas divergem em alguns aspectos. Em primeiro lugar, muitos gêneros são mais específicos de jornais diários do que revistas semanais. Deve-se ter em mente que as revistas semanais, quinzenais ou mensais também divergem entre si e os jornais são em geral diários. Assim certos gêneros que circulam com notícias ou fatos apenas do dia (p. ex., anúncios fúnebres e classificados) pouco aparecem em revistas. Mas apenas uma análise detalhada diria se há diferenças específicas. O certo é que a titulação (manchetagem) em revistas e jornais tem diferenças notáveis. E aí entramos em aspectos que podem ser influenciados pela natureza do suporte.



6.5. Revista científica (boletins e anais)

Seguramente, as revistas científicas, os anais de congressos e os boletins de associações científicas, por exemplo, são suportes de gêneros bastante específicos e ligados a um domínio discursivo (o científico, acadêmico ou instrucional). Ali encontramos artigos científicos, resenhas, resumos, comunicações, bibliografias, debates científicos, programação de congressos, programas de cursos e outros desta natureza. São suportes hoje tradicionais e que se especializam de maneira muito clara. Pelo fato de serem considerados científicos, há inclusive um status aos gêneros por eles veiculados que é diferente dos textos similares que aparecem em jornais diários ou em revistas semanais de divulgação ou noticiosas.



6.6. Rádio

Não obstante ter dito no início que não me reportaria aos gêneros orais de maneira sistemática, lembro o rádio como suporte pela sua relevância e por ter sido desenhado para este fim. O rádio também pode ser considerado um suporte na medida em que se toma como um lugar de fixação e não apenas como a rádio emissora ou tecnologia. Conta com uma multiplicidade de gêneros. Mas como ele conta com a transmissão sonora sem o recurso visual, certamente terá uma interferência diversa da televisão. As notícias na TV, no rádio e no jornal não têm o mesmo tipo de tratamento em relação ao discurso relatado ou reportado. Há pouco discurso direto (citações de fala) no rádio e na TV, ao passo que isso ocorre mais no jornal e na revista.



6.7. Televisão

A televisão acha-se no mesmo caso que o rádio, mas com a diferença de que aqui temos a imagem e não só o som. Além disso, poderíamos pensar em meios ou sistemas de transporte diversos na TV, já que ela pode servir-se de outros suportes e até de eventos complexos, pois na TV podemos ter a transmissão de teatro, cinema, congresso e assim por diante. E não sabemos ainda como tratar o caso do cinema e do teatro. Estes não são propriamente suportes e sim ambientes ou até instituições. Já a peça de teatro e o filme em si são gêneros.



6.8. Telefone

Igualmente ao caso do rádio, temos aqui um suporte para gêneros orais. O telefone está no mesmo plano que os anteriores e é um suporte quando não se pensa apenas na tecnologia. Classifico como um suporte-meio. Nele se dão muitos gêneros, mas haveria que discutir se distinguimos entre o telefone enquanto um aparelho e a telefonia como uma técnica de comunicação. Assim, a telefonia permite a realização de gêneros que o telefone não permitiria. Não me parece clara a distinção que se faz entre ambos e isso deveria ser melhor pensado.



6.9. Quadro de avisos

Este é um caso interessante que pode ser tido como um suporte pela quantidade de gêneros que abriga, mas há quem o considere um gênero textual, o que parece ser equivocado. Num quadro de avisos temos publicidades, avisos, poemas, listagens de notas, informações diversas, cartazes de eventos, placas, sugestões, propostas, regimento de cursos, recortes de jornal com notícias, editoriais etc. Trata-se de um suporte com características próprias que contém no geral textos de curta extensão. Mas os quadros de avisos hoje podem conter até mesmo outros suportes como os folders e jornais inteiros afixados. Também contém material visual como fotos e desenhos isolados.



6.10. Outdoor

Trata-se de um suporte e não de um gênero. Como lembrado acima, em alguns momentos eu o classifiquei como gênero, mas dada a diversidade que esse “suporte” veio assumindo quanto aos gêneros que alberga e quanto à função desses gêneros, eu o classifico hoje como suporte. O outdoor tem peculiaridades muito interessantes e mereceria um estudo à parte. Ele veicula, como já se viu, gêneros bastante especializados, mas vem se generalizando cada vez mais.



6.11. Encarte

Como vamos tratar o encarte em um jornal diário? Muitas vezes é uma revista completa, em outros casos é uma publicidade, uma propaganda, uma campanha publicitária e assim por diante. Mas o encarte sempre vem dentro de um outro recipiente ou suporte. Já o próprio nome diz que se trata de algo dependente. Podemos falar de suportes de suportes? É importante não considerar a bula de remédio como um encarte por vir situada no interior de uma embalagem.



6.12. Folder

Tudo indica que o folder pode ser tido como um suporte de gêneros diversos, embora haja quem o trate como gênero. O folder é um suporte que fixa gêneros tais como campanhas publicitárias, campanhas, publicidades, instruções de uso, currículos e assim por diante. Existem folders com mais de um gênero.



6.13. Luminosos

Os luminosos foram produzidos para veicularem textos e imagens. São estruturas comunicativas com as quais os usuários têm em geral um contato bastante fugaz e não tão sistemático. Na maioria dos casos ali figuram textos em movimento e gêneros ligados à publicidade de grandes empresas ou campanhas governamentais.



6.14. Faixas

As faixas também são suportes tradicionais e altamente convencionais. São lugares adequados para veicular textos para serem vistos de longas distâncias. Também servem para decorar as mesas de abertura de congressos ou festividades. As faixas constituem uma espécie de suporte bastante comum para eventos festivos. Elas portam um gênero de cada vez. São inscrições, logomarcas ou então indicação de eventos. Há faixas comemorativas de aniversários de empresas, festividades e situações de grande público.



Como se nota, esta relação tem a finalidade de sugerir uma distinção entre alguns suportes pela natureza dos gêneros que portam ou até mesmo pela natureza de sua interferência nos gêneros que fixam e suportam.



7. Alguns suportes incidentais



Tal como lembrado acima, os suporte aqui denominados incidentais são apenas meios casuais e que emergem em situações especiais ou até mesmo corriqueiras, mas não são convencionais, como os apontados no item anterior. Ninguém nega que uma porta de banheiro porta textos, mas isto não é comum em todos os banheiros, como não é comum todos terem seus corpos com inscrições ou que as calçadas, as paredes e os muros em geral estejam cheios de inscrições. Em cidades ou locais de maior cuidado, evitam-se inscrições nestes lugares, o que indica que não se os tem como convencionais para portarem textos escritos. Tudo isso me faz crer que de modo mais sistemático se devesse falar de suporte em sentido estrito para os do grupo acima e não do grupo aqui apresentado. Contudo, como é inegável que boa parte dos textos hoje em circulação pelos ambientes urbanos se acham nesses suportes incidentais, tratamos deles aqui, já que não devem ser ignorados.



7.1. Embalagem

Este é um caso interessante, pois no geral a embalagem não seria tida como um suporte. Contudo, tomamos a embalagem como um suporte na medida em que nas embalagens podem estar vários gêneros. Embalagens de produtos comestíveis muitas vezes trazem não só o rótulo do produto, mas uma receita. Ou então no caso de remédios pode ter uma breve bula de remédio e assim por diante. Quanto a este último aspecto, pode-se indagar se as indicações que estão no rótulo são algo diverso da bula que vem dentro da caixa de remédio. Se indagarmos de vários especialistas, eles dirão que a bula é diferente do que aquilo que vem na embalagem. Mas se observarmos as instruções que aparecem na embalagem elas parecem uma bula. Veja-se este caso típico da bula/instrução que vem na embalagem de remédio. Ali temos ainda coisas como código de barras, endereço, descrição do produto (vejam-se os rótulos de vinhos com duas partes) Portanto, a embalagem não é um gênero e sim um suporte. Já a bula que vem dentro de uma embalagem de remédio não te na embalagem o seu suporte, pois aqui a embalagem estaria para a bula como uma espécie de recipiente.



7.2. Pára-choques e pára-lamas de caminhão

Não parece haver dúvidas de que este seja um suporte de gêneros muito especiais, tais como frases e provérbios. Certamente o caminhão é um veículo em vários sentidos, pois ele transporta tanto o pára-choque como o texto. Mas não é só o pára-choque do caminhão e sim também de automóveis e demais veículos como ônibus etc. que servem, para esta finalidade. Esta é uma família de suportes ligadas a um meio de transporte. Talvez devêssemos pôr aqui também as janelas traseiras de ônibus urbanos, que hoje se tornaram suportes sistemáticos especialmente de publicidades.



7.3. Roupas

Embora me decida pelas roupas como suportes, não parece muito claro se devemos tomá-las como tal, por exemplo, uma camiseta. Ela parece ser um suporte de gêneros, já que hoje em dia porta textos dos mais variados gêneros, como poemas, provérbios etc. Mas a camiseta não traz de maneira sistemática textos e talvez devêssemos restringir este aspecto. Além disso, se consideramos a camiseta de jogador de clube de futebol temos aqui uma estrutura fixa com o nome do jogador nas costas, o emblema do time na frente e opcionalmente uma publicidade. Já uma camiseta de jogador da seleção nacional não tem publicidade e vem padronizada. Parece que estes dois tipos de camisetas são gêneros e não suportes. Outras roupas (casacos, gravatas, calças, vestidos, meias, roupas íntimas) tem inscrições variadas, mas em escala mais reduzida que as camisetas.



7.4. Corpo humano

O corpo humano vem cada vez mais servindo para veicular textos em geral muito curtos e na forma de tatuagens ou de slogans para protestos em situações especiais. Nem por isso o corpo humano passa a ser um suporte convencional. Ele continuará sendo um suporte incidental que vai variar de acordo com as culturas. Nas culturas indígenas, os corpos são muitas vezes os “suportes semióticos” mais convencionais em situações de festas ou cerimônias especiais. Mas isto pela circunstância de não terem outros suportes específicos nem disporem da escrita convencional em alguma de suas formas.



7.5. Paredes

Todo tipo de parede está aqui incluído. Podem ser paredes de casas, edifícios ou mesmo de interiores como universidades, escola etc. Esses suportes operam muitas vezes em um contínuo como no caso de suportarem um quadro de avisos que é o suporte de gêneros.



7.6. Muros

Hoje em dia parece que os muros estão se tornando suportes convencionais para alguns gêneros textuais tais como as propagandas políticas. Eles sevem para inscrições, propagandas, publicidades e pichações em geral. São textos pouco desenvolvidos, mas de grande eficácia comunicativa. Mesmo que os muros sejam usados como suportes em grande escala, eles não são convencionados para esta finalidade como as revistas, os jornais e os livros.



7.7. Paradas de ônibus

Imagino que as paradas de ônibus estão sendo tomadas como bons locais para afixar ou mesmo inscrever textos pela sua condição estratégica como ambiente favorável à comunicação em grade escala. São locais muito visíveis e quando há alguma parede ou um muro, comportam vários gêneros. Eles são para o grande público. Ali encontramos campanhas ou publicidades de apelo geral como carros, apartamentos, produtos de beleza e outros deste tipo, mas não de supermercados nem de produtos perecíveis.



7.8. Estações de metrô

Embora as estações de metrô sejam do mesmo estilo que a parada de ônibus, são sempre maiores e com mais possibilidade de gêneros. Tem algo de similar com paredes e muros quanto aos gêneros que comportam, mas há ainda quadros de avisos e cartazes ou outros suportes que estão nelas afixados, o que lhes dá um caráter diferenciado nem sempre ligado à idéia de suporte de gêneros e sim de suporte de suportes.



7.9. Calçadas

Hoje as calçadas passaram a ser locais para inscrições, tal como se institui a calçada da fama, em que pessoas famosas põem a impressão de seus pés e a inscrição de seus nomes. Esse suporte em geral porta textos curtos e permanentes.



7.10. Fachadas

As fachadas de prédios, em geral de grandes extensões, são similares a paredes, mas ficam sempre de frente para grandes locais de circulação pública e portam inscrições maiores com gêneros de curta extensão. Na maioria das vezes são logomarcas ou os nomes de empresas, marcas de grandes produtos.



7.11. Janelas de ônibus (meios de transporte em geral)

De alguns tempos para cá, as janelas de ônibus, em especial a parte traseira, tornaram-se um suporte de publicidades e campanhas governamentais. Mas isto não é comum e não tem regularidade. Trata-se de um suporte muito incidental.



A listagem de suportes incidentais seria imensa se fôssemos enumerar todos os suportes que eventualmente contém algum texto. Por isso, fica aqui apenas a sugestão de observação e o critério básico para sua classificação nesta categoria. Trata-se de locais eventuais e não convencionais para a atividade comunicativa.



8. Casos claros de serviços em função da atividade comunicativa



Os casos abaixo não devem ser situados entre os suportes textuais, sejam os incidentais ou os convencionais. A tendência é vê-los como serviços, daí a decisão em tratá-los como casos específicos separados dos suportes. Aparecem aqui porque em muitos casos são listados como suportes.



8.1. Correios

Os correios são menos um suporte e mais um meio de transporte ou um serviço. É muito diferente do que o caso da revista e do jornal. Quanto a isso seria interessante discutir se o telefone e os correios formam um conjunto de suporte-meio diversos da televisão e do rádio.



8.2. {Programa de} E-mail

Aqui está um caso curioso, pois se tomarmos o programa “outlook”, por exemplo, teremos sem dúvida um suporte do tipo “correio eletrônico”, mas se tomarmos os e-mails enquanto correlatos das cartas pessoais, teremos um gênero. Neste caso, trato a palavra e-mail como se fosse uma homonímia, ou seja, um termo com duas acepções tanto de origem como de função. Contudo, o e-mail na função de correio eletrônico é nitidamente um serviço que transporta os mais variados gêneros, tais como propagandas, ofícios, bilhetes, e-mails, cartas comerciais, relatórios, artigos científicos e assim por diante. Não obstante isso, hoje a idéia mais comum em relação aos e-mails é que sejam vistos como um gênero da área epistolar, assim como observou Juliana de Assis (2002).



8.3. Mala-direta

A mala-direta se assemelha a um serviço e deveria ser tratada como tal. No geral, a mala-direta veicula gêneros diversos do domínio discursivo da publicidade até a comunicação entre empresas e remessa de documentos a clientes de empresas. A expressão ‘mala-direta’, quando empregada pelos Correios, é apenas uma designação para um suporte, mas enquanto empregada por uma empresa pode ser até mesmo a designação de um gênero, como o caso de uma carta de aniversário. O caso merece um estudo à parte pela complexidade. Há malas diretas para pessoas (uma carta de aniversário que o gerente do banco manda no seu aniversário); há malas diretas para 10.000 pessoas (as cartas que recebemos de um candidato a deputado); há malas diretas com publicidades de empresas (as promoções de uma loja) e assim por diante. Mas há casos muito mais complexos do que estes sendo chamados de mala direta.



8.4. Internet

Trata-se de mais um caso limite. Pessoalmente, trato a Internet como um suporte que alberga e conduz gêneros dos mais diversos formatos. A Internet contém todos os gêneros possíveis.



8.5. Homepage e site

Para alguns autores a homepage e até mesmo o site é um gênero, mas para outros é um suporte. Creio que de um modo geral a homepage é um suporte e não um gênero. Não tenho condições de expor argumentos neste caso agora, mas os debates conduzidos em aula me deixaram com alguma clareza quanto a não se considerar este caso como um gênero e sim como um suporte. Além disso, parece claro que a homepage institucional carrega uma série de gêneros. Basta observar a homepage de qualquer universidade pare ver a diversidade de coisas feitas ali dentro. Entre outras coisas está ali a possibilidade da matrícula de alunos on-line. Se tomarmos uma homepage de algum servidor da Internet como a UOL, vemos que se trata de um serviço ou suporte de outros suportes, já que ali estão revistas, jornais e livros.



9. Suporte textual e formas de leitura



Em estimulantes observações a respeito do hipertexto, Sírio Possenti (2002:208), reporta-se ao problema da relação entre o suporte dos gêneros textuais e a leitura, dizendo:

“Quando ouvi falar dos trabalhos de Chartier pela primeira vez, o que ouvi foi que ele teria tentado mostrar que a leitura que se faz dos textos é afetada pelo suporte. Ou seja, que não se lê da mesma maneira um rolo de papiro e um livro com a confirmação mais ou menos conhecida de todos.”



Intrigado com estas bizarras sugestões, Possenti não conseguia ver algum “poder” emanando do suporte que pudesse afetar a leitura. O simples fato de um texto estar num papiro único, num livro impresso em milhares de exemplares, na tela do computador rolando verticalmente não poderia afetar a leitura. Desconfiando dessa ingênua posição, Possenti foi ao Chartier (1994, 1997) para ver o que o autor dizia e não seus solertes intérpretes. Segundo Possenti (2002:209), Chartier de fato acredita que se lê de forma diversa o mesmo texto em suportes diversos, não no sentido de se compreender diferentemente o texto e sim no sentido de se manter com ele uma relação diferente, ou seja, há uma relação diferente ao se ler um edital de concurso num jornal ou num outdoor, pois no jornal eu posso fazer anotações, sublinhar etc., interferindo no texto, mas no outdoor isto já não é possível (pelo menos em circunstâncias normais).



Isto quer dizer que nós não operamos do mesmo modo com os textos em suportes diversos, mas isso não significa ainda que os suportes veiculem conteúdos diversos para os mesmos textos. O suporte não muda o conteúdo, mas nossa relação com ele, não só por permitir anotações, mas por mater um contato diferenciado com ele.



A questão é interessante e já foi abordada acima em outros termos quando nos indagávamos se a leitura de uma publicidade num livro didático e num jornal tinha o mesmo objetivo e a mesma significação. Possenti (2002:209) também julga que uma crônica lida num jornal diário e a mesma crônica lida numa coletânea de crônicas do autor em um livro de crônicas pode ser vista de modo diverso.



Aspecto também merecedor de mais reflexão é o que diz respeito ao suporte numa dada situação e configuração. Neste caso, a mesma notícia publicada num jornal do interior de Pernambuco e no New York Times, certamente terá outra repercussão e será lida de modo diverso. Não que tenha conteúdo diferente e sim terá um efeito diferente no leitor. Isto tem a ver com o suporte ou com o status daquele suporte particular?



10. Observações críticas



Embora aqui estejam algumas análises até certo ponto sensatas, tudo isto merece uma revisão cuidadosa e indubitavelmente séria com análises mais profundas e exemplos mais específicos. Mas fique claro que a questão do suporte, para ser resolvida a contento, deve ser precedida da solução de uma série de outros problemas relativos aos gêneros textuais. Também tenha-se em mente que refletir sobre o problema do suporte é refletir sobre o problema da circulação textual em nossa sociedade. A complexidade dos suportes revela a complexidade social em que os próprios textos circulam.



Creio que este tema é um caso típico para estudos de aplicação de metodologias empíricas de coleta de dados e análise in loco, a fim de verificar qual o grau de veracidade das afirmações. Pois os elementos de que tratamos aqui são empíricos de grande relevância. Não acredito, no entanto, que aqui estejamos diante de uma discussão semiótica, mas sim de uma discussão da organização social pela circulação da escrita.



E este aspecto leva-me a levantar uma questão que ficou apenas lembrada no início desta abordagem. Onde ficam e como ficam os suportes dos gêneros orais? Esta questão deve ser discutida e com muita cautela. Temos o teatro, o cinema, o rádio, a televisão, todos lembrados aqui, mas sem uma especificação da modalidade de realização. São suportes, canais, instituições, ambientes? Talvez não valha a pena fazer uma distinção rigorosa em todos os casos, mas sim discutir a questão do suporte de uma maneira geral e depois disso ver como os demais problemas se põem. Assim o próximo passo é entrar em campo e discutir esses aspectos empiricamente.



Nem sempre a decisão a respeito da identificação de um suporte, um gênero, um serviço, evento e um canal é clara. As fronteiras dependem da perspectiva da observação e do modo como encaramos os fenômenos. Esta discussão deveria ser conduzida com calma e critérios claros. Há casos em que não se sabe ao certo como tratar um determinado fenômeno, por exemplo, o folder que pode ser ao mesmo tempo um suporte para vários gêneros como volante, resumo, esquema etc., mas que em certos momentos foi tratado como gênero. Um Seminário e uma mesa-redonda certamente não devem ser tratados como gênero e sim como eventos ou talvez até mesmo como suportes.



Pode-se também indagar até que ponto o corpo humano seria um suporte na medida em que suporta e fixa inscrições como tatuagens. As tatuagens são gêneros interessantes e hoje tornou-se comum tatuar o nome do namorado ou dos filhos. É possível que o corpo seja suporte, mas apenas incidental, tal como sugerimos acima. Seria adequado dizer que as costas, a perna, o braço, a barriga são suportes?



Há ainda certos casos que me parecem muito complexos quando vistos como suportes textuais, tais como o teatro e o cinema que seguramente não são suportes. Por outro lado, as mesas-redondas e os simpósios são eventos, mas poderiam ser suportes de gêneros orais, já que os suportes de gêneros orais parecem ser eventos. Nestes casos já começamos a entrar em certos pontos que se imbricam com domínios discursivos e com instituições, tais como o quartel, a escola, a igreja vistos na qualidade de locais ou instituições em que se produzem gêneros e não domínios discursivos.



Aspecto já levantado aqui, mas não claramente desenvolvido, é o que diz respeito ao problema dos gêneros em suportes (convencionais e incidentais) em locais públicos em áreas abertas. Esses suportes comportam gêneros bastante marcados, em geral de apelo publicitário ou de divulgação ampla. Esses suportes em ambientes públicos abrigam um número limitado de gêneros. Na maioria dos casos são gêneros de vida efêmera naquele suporte. A impressão é que pelo fato de ser um ambiente amplo e aberto, os gêneros ali presentes têm vida sazonal. Seja pela moda, pela política ou algo assim. Entre esses suportes estão: (a) Outdoors; (b) Paredes; (c) Muros; (d) Paradas de ônibus; (e) Estações de metrô; (f) Calçadas; (g) Fachadas; (g) Luminosos; (h) Faixas; (i) Janelas de ônibus; (j) Placas públicas.



As observações feitas neste item revelam que uma cidade pode ser um ambiente textual de muitos e variados suportes. Na realidade, somos cada vez mais uma sociedade textualizada e em locais públicos multiplicam-se os usos da escrita.



Por fim, o tema mais relevante de todos e que foi por diversas vezes tocado e me parece merecer maior reflexão é o que diz respeito à relação de influências mútuas entre gêneros e suportes. A presença dos gêneros não é indiferente nos diversos suportes nem imune a eles. Mas qual é precisamente essa influência não está ainda de todo claro.



Fontes de referência



BAKHTIN, Michail. [1979]. 1992. Os gêneros do discurso. In BAKHTIN, M. Estética da Criação

Verbal. São Paulo, Martins Fontes, pp. 277-326.



BEAUGRANDE, Robert de. 1997. New Foundations for a Science of Text and discourse: Cognition,

Communication, and the Freedom of Access to knowledge and Society. Norwood, Ablex.



CHARTIER, Roger. 1994. A ordem dos livros. Brasília, Editora da UNB.



CHARTIER, Roger. 1997. A aventura do livro do leitor ao navegador. São Paulo, Editora da UNESP.



DUBOIS, Jean et alii. 1973. Dicionário de Lingüística. São Paulo, Cultrix.



HOUAISS, Antônio. 2002. Dicionário Houaiss. (versão eletrônica)



MONDADA, Lorenza. 1994. Verbalisation de L’Espace et Fabrication du Savoir: Approche linguistique de la construction des objets de discours. Lausanne, Université de Lausanne.



Novo Aurélio. Século XXI. 2002.



POSSENTI, Sírio. 2002. Os Limites do Sentido. Curitiba, Criar Edições.



XINRAN. 2003. As boas Mulheres da China. São Paulo, Companhia das Letras.