terça-feira, 20 de outubro de 2009

OLHEM O PROJETO DO GESTAR II DO PÓLO DA ESCOLA PROFª HELENA PUGÓ - PROJETO : VIDA E ENCANTOS DO SERTÃO NA OBRA DE PATATIVA DO ASSARÉ







PROGRAMA GESTÃO DA APRENDIZAGEM ESCOLAR - GESTAR II





VIDA E ENCANTOS DO SERTÃO NA OBRA DE PATATIVA DO ASSARÉ






Projeto didático proposto pelo Núcleo de Professores do Gestar II do Pólo Helena Pugó.





RECIFE
2009







Justificativa



Aos Poetas ClássicosPoetas niversitário,Poetas de Cademia,De rico vocabularoCheio de mitologia;Se a gente canta o que pensa,Eu quero pedir licença,Pois mesmo sem portuguêsNeste livrinho apresentoO prazê e o sofrimentoDe um poeta camponês. (...)

Procurando divulgar a vida e obra de Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré, o grupo Gestar II, do Pólo Helena Pugó, irá vivenciar em sala de aula, com cada professor do projeto, os cem anos do nascimento desse grande ícone da cultura popular nordestina brasileira, que através de sua poesia apresenta uma língua que remete uma realidade plural vivenciada pelo povo nordestino que sobrevive as adversidades climáticas, bem como sociais.
Filho mais velho entre os cinco irmãos, começou a vida na enxada e freqüentou a escola por seis meses. Porém, Patativa dizia que para ser poeta não era preciso ser professor, ‘Basta no mês de maio, recolher um poema em cada flor brotada nas árvores do seu sertão’.
Dentre as atividades do projeto destacam-se a leitura, escrita e análise lingüística nas aulas de Língua Portuguesa, tendo como foco temático o legado de Patativa do Assaré.

Objetivo Geral

Proporcionar aos leitores, através da obra de Patativa do Assaré, a descoberta por meio da leitura, reflexão e análise dos seus poemas que o mesmo os utilizava como instrumento de denúncia social ; usando dois registros : escrevia na língua cabocla ( estilização da fala do sertanejo) e dentro da norma culta.

Objetivos Específicos

Analisar poemas de Patativa do Assaré, observando o resgate de uma poesia com raízes populares e nutridas no regime da oralidade essencialmente sertaneja.

Propor alternativas de atividades a serem trabalhadas em sala de aula, evidenciando as vertentes que sua obra comporta : a culta e a popular.

Identificar, por meio dos estudos dos seus poemas que sua obra dividia-se em três vertentes : lírica, narrativa e reflexiva; daí a sua interdiscursividade com outros autores e obras, onde a crítica social era constante em relação às injustiças sociais.


Fundamentação Teórica

“ A posição normal do homem no mundo, como um ser de ação e da reflexão, é a de admirador do mundo”. Paulo Freire

Estudando Patativa do Assaré vimos que não é diferente. Em sua biografia e obra no geral, encontramos um homem sensível apesar de ter vivido numa região árida, no contexto do Nordeste brasileiro onde dados estatísticos são suficientemente eloquentes para que não se necessite definir a ausência de formação acadêmica de um homem que aprendeu a ler a palavramundo contextualizada na admiração que tinha pelo seu próprio mundo.
A inquietação pela leitura fez com que Patativa do Assaré procurasse o desenvolvimento interno que predomina sobre o externo. O que está “envolvido” ou “enredado” deve desenvolver-se no sentido de desenredar-se, procurar a palavra viva, com sentido, já que:

( ...)“ Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá.
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidade
De dá um pequeno insaio
In dos livro do iscritô,
O famoso professô
Felisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia :
A pá - ...( ... )
ASSARÉ, Patativa do. Aos Poetas Clássicos

“A pá” seria apenas o instrumento necessário para começar a “lavra”, ou melhor, trabalhar com a “palavra”, pois “se é praticando” que se aprende, vamos praticar para aprender para praticar melhor. ( FREIRE, 2001)
Foi com essa prática que o Mestre de Assaré superou a burocracia escolar e a instrumentalização ideológica da escola que provocam correntes antagônicas que, por mais diversas que sejam, têm em comum a exigência da libertação.
Nesta ótica, a formação, o capital cultural do mestre de Assaré era vivenciar a prática concreta de libertação e de construção da sua história, compreender que aprender a ler, alfabetizar-se é antes de mais nada aprender “a ler o mundo, compreender o seu contexto, não uma manipulação mecânica de palavras, mas numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade.”
Com esta conscientização desenvolveu um novo poder que não é a sujeição aos que pretendem continuar negando aos homens a matriz do conhecimento, mas um convite corajoso àqueles que foram discriminados por serem detentores de um “ saber inferior, ou melhor, fora da escolarização”. (FREIRE, 2001
Mas o reconhecimento vem de teóricos e acadêmicos, a consideração da própria realidade, do meio transcendente que, com sua influência pode modificar a forma de apreciar a realidade concreta, bruta, dura, seca de qualquer homem que não seja profundamente político, crítico, sensível.
Escolarizado na vida, de uma determinação pessoal firme, a obra do Mestre de Assaré serve de objeto de estudo e fundamentação teórica de sujeitos do conhecimento porque “ Não se estuda apenas na Escola. Estudar é assumir uma atitude séria e curiosa diante de um problema”. (FREIRE, 2001)
A palavra, já se disse certa vez, é a matéria-prima da poesia. E a língua é o código que utilizamos para empregá-la. Na perspectiva de Irande Antunes língua “é um ato humano, social, político, histórico, ideológico e que tem conseqüências, que tem repercussões na vida de todas as pessoas”.
“[...] Cada língua ilustra uma das infinitas maneiras que o homem pode encontrar de entender a realidade”. (PERINI, 2006. In ANTUNES. Muito além da gramática).
Patativa do Assaré foi um poeta do povo. Retratava em sua poesia a expressão do sofrimento, da realidade e esperanças do povo nordestino, através de uma linguagem que explora tanto o aspecto culto como também o popular da língua.
“Seu trabalho se distingue pela marcante característica da oralidade. Seus poemas eram feitos e guardados na memória para depois serem recitados”.
A transcrição de sua obra para os meios gráficos perde boa parte da significação expressa por meios não verbais (voz, entonação, pausas, ritmo) que realçam características manifestadas nas atuações gestuais, faciais (hesitação, ironia, veemência). Tinha capacidade de produzir versos tanto no modelo clássico (linguagem culta) como poesia de rima e métrica populares, a “poesia matuta”, segundo o autor (transcrito de Wikipedia).

“[...] Na sua poesia estão presentes todas as lutas e esperanças do povo, estão reunidas palavras, idéias que se erguem com a dignidade guerreira dos justos, contra todas as formas de obscurantismos e de exploração do homem. [...]” (ASSARÉ, Patativa do. Ave Poesia. Academia Brasileira de Cinema).

Embora tenha frequentado a escola por alguns meses, Patativa revela grande intimidade com a língua e com a arte de criar versos na forma como os constrói, na disposição, harmonia e significação das palavras, denotando , conforme cita Irandé,relativamente à gramática, conhecimento intuitivo através de experiências e atividades de sociais de uso da língua.

“Em Patativa, a resistência revela-se nos temas, bem como na tessitura de escritura de seus poemas, no uso da linguagem como demonstração e valorização de uma condição de classe”. (COBRA, Cristiana M. Patativa do Assaré: relações entre Estética, Hermenêutica, Religião e Arte).

Marcuscchi declara que escrever é uma atividade que exige um movimento para o outro, definindo este outro como seu interlocutor. Assim podemos dizer que é nessa intencionalidade de comunicação e interação com o outro e o mundo que Patativa se interpõe como suporte, veículo de manifestação da cultura popular do povo marginalizado e oprimido do sertão nordestino. Como exemplo disto observemos a última estrofe do poema ‘ABC do Nordeste flagelado’:

“Posso dizer que cantei
Aquilo que observei
Tenho certeza de que dei
Aprovada relação
Tudo é tristeza e amargura,
Indigência e desventura
-Veja, leitor,quanto é dura
A seca no meu sertão”.

Com uma capacidade de produção poética que vai do estilo clássico, influência das leituras de Camões (Os Lusíadas), Castro Alves (Espumas Flutuantes), Homero, Bocage e Bilac ao estilo popular (poesia de rima e métrica popular), possui o dom de lidar com as palavras além de interagir com o leitor, mobilizando-o a refletir e muito mais a sentir a dor de um mundo do qual ele se coloca como parte. Seus versos não necessitavam de revisão ou reajustes, já nasciam coma força de manifestação dos sentimentos e de combate às injustiças sociais.
No processo de construção dos textos de Patativa do Assaré verificamos o atrelamento do desempenho e da oralidade que ladeiam o homem, o poeta e o personagem/mito; essencialmente pelos elementos que constituem sua vida e obra. Patativa sabia que para cada situação circunstancial havia um contexto; daí sua maestria em utilizar seus discursos de acordo com o status de seus interlocutores ou das situações que enfrentava. Sempre tinha prontas peças declamativas para atender seus fãs e outros que o visitavam em sua casa. Utilizava poemas curtos e contemplava os nomes dos lugares de onde vinham os visitantes. Quando eram autoridades, intelectuais e mídia, ele sempre esperava que o destino das conversas fosse dada pelos visitantes ilustres. Era nesses momentos que mesclava em suas declamações longas, a linguagem “matuta” à linguagem erudita. Sua poesia é, em certo sentido, bicultural, pois lida com dois registros linguísticos: escreve na língua cabocla, num português popular que é uma estilização da fala do matuto sertanejo e escreve também dentro da norma culta. Nessa parte da obra, observa-se a riqueza do seu léxico e a complexidade de alguns termos sintáticos.
. A obra de Patativa é comparada a um arquivo oral por excelência, além de ser depositário de significantes, esse arquivo oral funciona como fator preponderante nas suas performances de rituais criados pelo mesmo. No momento do desempenho, Patativa assume um papel e realiza um ato social, sendo os autores dessa ação social, no caso, o locutor (ele) e o ouvinte, esteja ou não presente. Toda a linguagem é institucionalizada durante as performances, cada palavra, gesto, tudo é regido por regras. A palavra é ação, interação e cria vínculos. Suas declamações metamorfoseiam sua poética; poética oriunda de cada profissão e cria nos ouvintes um contrato oral : ele refere-se aos seus personagens fictícios como reais, tornando o dito real.
Uma grande maiorias de estudiosos afirmam que a poesia de Patativa é resultante de uma tradição oral; sabemos que tradição oral é um processo contínuo com seus movimentos e marcas visíveis nas culturas contemporâneas e mesmo não visíveis; observamos que todas as culturas são resultantes de tradições orais as mais variadas. Porém se tomarmos o termo oral isolado das relações e associações que têm com as ações que o acompanham, criaremos um impasse. Tudo que é vocalizado ou produto direto da voz não quer dizer que seja oral. Oralidade não é apenas a qualidade do que oral, tampouco se limita às classificações orais ou às suas modalidades. Oralidade implica processo e não algo acabado. E esse processo refere-se aos mecanismos acerca da voz e da sua natureza oral. Zumthor nos diz que faltar-nos uma “ poética geral da oralidade que sirva de apoio às pesquisas particulares aplicáveis ao fenômeno das transmissões da poesia pela voz e pela memória,” tomaremos esse conceito de oralidade para situar a poesia de Patativa no campo teórico segundo o qual uma poesia oral pode ser transmitida, ainda que mediada pela escrita não pode prescindir dos elementos que inauguram a poética oral. Poética que se mescla com a ação do homem no universo e sua presentificação no mundo através da vocalização, do gesto e do desempenho. Grande parte dos poemas de Patativa quando transportados para a escrita são oralizados, pois possuem vozes que desejam a vocalização dos mesmos. Zumthor deixa claro que “ a voz é querer dizer a vontade de existência.A voz é lugar de uma ausência que nela , voz, se transforma em presença. (... ) “ é em torno da voz que se fecha e se solidifica o laço social, enquanto toma forma uma poesia. (...) O sopro da voz é criador.” Logo, estudar oralidade implica em transpor as barreiras dos pressupostos eruditos de uma civilização letrada. Ao falar de uma sobrevivência da oralidade num poema oral, Zumthor não fala em repetição e sim de atualização do antes através da poesia oral. Atualização aponta para movimento, ação e ressignificação; logo a obra de Patativa transcende a dualidade tradição e contemporaneidade: sua obra é universal e imortal. E qual a função da poesia oral? É de dizer e fazer o mundo e para tal se estrutura sob formas de narrativas, que por sua vez se estruturam sob diversos aspectos e modalidades enunciadoras e comunicativas.
Segundo Bagno, o problema do preconceito linguístico não está no que se fala, mas em quem fala o quê. O “preconceito linguístico é decorrente de um preconceito social, tão comum às comunidades ditas letradas”. Forma-se então o preconceito da linguagem contra a fala de determinadas classes sociais consideradas “ incultas”, e também contra a fala característica de determinadas regiões.O preconceito lingüístico surge da idéia equivocada de que existe apenas um tipo de língua correta: aquela língua dicionarizada e gramaticalizada. A idéia de propriedade ou impropriedade da língua utiliza-se do padrão linguístico literário como parâmetro; logo, todos os outros modos de expressão oral são considerados erros. Observemos como os nordestinos são mostrados nas novelas televisivas: de modo jocoso, considerado” um tipo grotesco, rústico, atrasado e criado para provocar o riso, o escárnio e deboche nos demais personagens e no espectador.”
Portanto, os seres humanos são capazes de escolher modificar a sociedade e de criar maneiras de viver. Sabemos que nem todas as variações linguísticas têm o mesmo prestígio social no Brasil. Basta lembrar de algumas variações usadas por pessoas de determinadas classes sociais ou regiões para percebermos que há preconceito em relação a elas.O texto abaixo mostra a temática da poesia :
O poeta da roça

Sou fio das mata, canto da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de paia de mío.
Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argun menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.
Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! Vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.
Meu verso rastero, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão. (...)

Você acredita que a forma de falar e de escrever comprometeu a emoção transmitida por este poema?
O que realmente nos torna bons escritores é o contexto, a vivência com várias tipologias textuais, ou seja, a interação com as diversas linguagens e o contexto social que vivemos. E quem melhor que Patativa para conhecer esse árido social, tão esquecido por alguns e tão vivenciado pelo sertanejo? É amplamente disseminado que dominar a norma culta é instrumento de ascensão social. Ora, o próprio Bagno enfatiza que se realmente isso fosse real, os professores de português estariam ocupando o topo da pirâmide social, econômica e política do país; afinal, supostamente, ninguém melhor que esses professores para dominarem a norma culta. Esse mito deve ser desconstruído através da compreensão de que o domínio da língua culta não ascende socialmente uma pessoa, pois ela está diretamente ligada ao reconhecimento dos direitos do cidadão (direitos não respeitados em sua maioria, quando se fala em Norte e Nordeste desse Brasil). Quando lemos o poema de Patativa “ Coisas do meu sertão” fica fortemente evidenciado o questionamento quanto à educação bancária, ao preconceito linguístico e aos direitos do cidadão que vive no sertão e luta desesperadamente para não deixar a sua terra“ ... o sertanejo é antes de tudo um forte...”colocação feita pelo escritor Euclides da Cunha.

Seu dotô, que é da cidade
Tem diproma e posição
E estudou derne minino
Sem perdê uma lição,
Conhece o nome dos rios,
Que corre inriba do chão,
Sabe o nome das estrela
Que forma constelação,
Conhece todas as coisa
Da histora da criação
E agora qué i na Lua
Causando admiração,
Vou fazê uma pergunta,
Me preste bem atenção:
Pruque não quis aprendê
As coisa do meu sertão?

Por favô, não negue não
Quero que o sinhô me diga
Pruquê não quis o roçado
Onde se sofre fadiga,
Pisando inriba do toco,
Lacraia, cobra e formiga,
Cocerento de friera,
Incalombado de urtiga,
Muntas vez inté duente,
Sofrendo dô de barriga,
Mas o jeito é trabaiá
Que a necessidade obriga.
ASSARÉ. Patativa do. Coisas do meu sertão.

Patativa é um poeta ímpar no cenário da poesia nacional do século XX, ele mantém viva e atualizada uma poesia de raízes populares, alimentada na oralidade; contudo aumenta os limites temáticos e formais dessas tradições ao somar um refinado lirismo a uma consciência social.




Metodologia

Inicialmente ocorrerá o estudo biográfico do poeta, para em seguida ser analisada sua obra por meio de aulas ( cinco ) onde teremos o desdobramento da sua obra com a de demais autores de acordo com o aporte teórico.

Cronograma

Fases de produção do projeto.
Agosto
Setembro
Estudo temático.
X

Pesquisa biográfica e bibliográfica.
X

Produção do texto (projeto)
X
X
Elaboração do material.
X
X
Conclusão do projeto.
X
X


Referências Bibliográficas

ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.

_________, Irandé. Muito além da gramática: por um ensino de línguas sem pedras no caminho. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.


ASSARÉ, Patativa. Antologia Poética. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2007.

BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. 34ª ed. São Paulo: Loyola, 2004.

Base Curricular Comum para as Redes Públicas de Ensino de Pernambuco: língua portuguesa/ Secretaria de Educação. Recife: SE. 2008.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. 47ª. ed. São Paulo: Cortez, 1921 - 1997.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção Textual: análise de gêneros e compreensão. 4 ed. Recife: Departamento de Letras/UFPE, 2006.

RAMOS, Graciliano. Vidas secas .Rio, São Paulo: Record, 2000.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

ZUMTHOR, Paul . Introdução à poesia oral. São Paulo: Hucitec, 1997.




ANEXOS



Plano de aula: vida e obra de Patativa do Assaré.

OBJETIVO
Viabilizar o estudo biográfico e da obra de Patativa do Assaré em comemoração aos seus cem anos de vida, para a elaboração de um cordel.
CONTEÚDOS / COMPETÊNCIAS E HABILIDADES RELACIONADAS AO CONTEÚDO (BCC)

Estudo do gênero biografia a partir da vida de Patativa do Assaré; e
Estudo das variações lingüísticas na obra de Patativa do Assaré.
METODOLOGIA
1º Passo: Pesquisa da biografia de Patativa do Assaré;
2º Passo: Leitura dos poemas “Realidade da Vida”, “Cante lá, que eu canto cá” e “O poeta da roça”, abordando as variantes lingüísticas e os recursos lingüísticos;
3º Passo: Estudo das características e a produção de um cordel, através da biografia de Patativa do Assaré;
4º Passo: Reescrita das produções do cordel e organizar grupos para apresentação do Sarau; e
5º Passo: Lançamento do cordel durante o Sarau de poesias no espaço cultural da escola.
RECURSOS
Cópia do texto do livro “Tudo é Linguagem” de Ana Borgato, Terezinha Bertin e Vera Marchese. Língua Portuguesa – 6ª série, ed. Ática, Págs. 171–173 e da coletânea Literatura em minha casa – Ofício de poeta, ed. Scipione, vol 1, págs. 30-37.



AVALIAÇÃO
O aluno será avaliado a partir da sua desenvoltura na habilidade argumentativa e oral, além da realização das atividades propostas.
CRONOGRAMA
10 h/a













Plano de aula: para você, o que é o Sertão?

OBJETIVO
Promover o estudo do poema Eu e o sertão de Patativa do Assaré, evidenciando a temática Para você, o que é o Sertão?, bem como relacionar trechos do romance Grande Sertão: Veredas , de João Guimarães Rosa e da música Eu e Deus no sertão da dupla sertaneja Vítor e Léo.
CONTEÚDOS / COMPETÊNCIAS E HABILIDADES RELACIONADAS AO CONTEÚDO (BCC)

Romance/ Tipo Textual Narrativo – Reconhecer os elementos constituintes do esquema narrativo. (P. 23 a 25) de Grande Sertão: Veredas, localizando informações explícitas e implícitas e identificar a temática do texto;
Reconhecimento das diferentes formas de tratar uma informação na comparação de textos que tratam do mesmo tema, em função das condições em que ele foi produzido e daquelas em que será recebido - interdiscurso;
Variantes lingüísticas: registro de regionalismo a fim de identificar as marcas lingüísticas que evidenciam o locutor e o interlocutor de um texto;
Estudo do gênero cordel a partir do texto de Patativa do Assaré: Eu e o Sertão. Pag. 153 a 158;
Estudo das biografias de J. Guimarães Rosa e Patativa; e
Estudo do gênero canção.
METODOLOGIA
1º Passo: Estudo do texto Eu e o Sertão de Patativa do Assaré para construção do conceito de variantes lingüísticas, registro de conteúdo, análise de textos e produção de exercício;
2º Passo: Análise oral e escrita (minuciosa) de alguns trechos do livro Grande Sertão: Veredas;
3º Passo: Apreciação da Música Eu e Deus no Sertão de Vítor e Léo para discussão da temática (sertão) e suas características, debate sobre o porquê do sertão inspirar tantos artistas;
4º Passo: Produção textual do tipo argumentativo: Para você, o que é o Sertão?; e
5º Passo: Registros de pontos comuns e divergentes entre as vidas e obras dos escritores João Guimarães Rosa e Patativa do Assaré.
RECURSOS
Cópia do texto de Patativa Eu e o Sertão, dos trechos do romance de J. Guimarães Rosa e da música Eu e Deus no sertão de Vítor e Léo. Dvd do documentário sobre a vida e obra de Patativa o Assaré. Dvd do filme Vidas secas de Graciliano Ramos.
AVALIAÇÃO
O aluno será avaliado a partir da sua desenvoltura na habilidade argumentativa e oral, além da realização das atividades propostas.
CRONOGRAMA
08 h/a








Plano de aula: perfil do homem nordestino.

OBJETIVO
Viabilizar o estudo do poema O retrato do sertão de Patativa do Assaré, evidenciando a temática perfil do homem nordestino, além de relacionar o poema Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto e a composição musical de Chico Science Manguetown.
CONTEÚDOS / COMPETÊNCIAS E HABILIDADES RELACIONADAS AO CONTEÚDO (BCC)

Variação Lingüística no intuito de promover a reflexão sobre a natureza mutável da língua e sobre a legitimidade comunicativa de todas as manifestações de variação*.
*Variação histórica
Acontece ao longo de um determinado período de tempo, pode ser identificada ao se comparar dois estados de uma língua. O processo de mudança é gradual: uma variante inicialmente utilizada por um grupo restrito de falantes passa a ser adotada por indivíduos socioeconomicamente mais expressivos. A forma antiga permanece ainda entre as gerações mais velhas, período em que as duas variantes convivem; porém com o tempo a nova variante torna-se normal na fala, e finalmente consagra-se pelo uso na modalidade escrita. As mudanças podem ser de grafia ou de significado.
Variação geográfica
Trata das diferentes formas de pronúncia, vocabulário e estrutura sintática entre regiões. Dentro de uma comunidade mais ampla, formam-se comunidades linguísticas menores em torno de centros polarizadores da cultura, política e economia, que acabam por definir os padrões lingüísticos utilizados na região de sua influência. As diferenças lingüísticas entre as regiões são graduais, nem sempre coincidindo com as fronteiras geográficas.
Variação social
Agrupa alguns fatores de diversidade: o nível sócio-econômico, determinado pelo meio social onde vive um indivíduo; o grau de educação; a idade e o sexo. A variação social não compromete a compreensão entre indivíduos, como poderia acontecer na variação regional; o uso de certas variantes pode indicar qual o nível sócio-econômico de uma pessoa, e há a possibilidade de alguém oriundo de um grupo menos favorecido atingir o padrão de maior prestígio.
Variação estilística
Considera um mesmo indivíduo em diferentes circunstâncias de comunicação: se está em um ambiente familiar, profissional, o grau de intimidade, o tipo de assunto tratado e quem são os receptores. Sem levar em conta as graduações intermediárias, é possível identificar dois limites extremos de estilo: o informal, quando há um mínimo de reflexão do indivíduo sobre as normas lingüísticas, utilizado nas conversações imediatas do cotidiano; e o formal, em que o grau de reflexão é máximo, utilizado em conversações que não são do dia-a-dia e cujo conteúdo é mais elaborado e complexo. Não se deve confundir o estilo formal e informal com língua escrita e falada, pois os dois estilos ocorrem em ambas as formas de comunicação.
As diferentes modalidades de variação lingüística não existem isoladamente, havendo um inter-relacionamento entre elas: uma variante geográfica pode ser vista como uma variante social, considerando-se a migração entre regiões do país. Observa-se que o meio rural, por ser menos influenciado pelas mudanças da sociedade, preserva variantes antigas. O conhecimento do padrão de prestígio pode ser fator de mobilidade social para um indivíduo pertencente a uma classe menos favorecida.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Varia%C3%A7%C3%A3o_(lingu%C3%ADstica).

Tipo Textual Narrativo a fim de reconhecer os elementos constituintes do esquema narrativo.
Paródia com o intuito de emprestar ao texto alguns aspectos de novidade e de criatividade.
Produção Poética e Bricolagem visando o incentivo a produção poética, bem como adicionar novos elementos aos textos que traduzam semanticamente o conteúdo retirado em jornais e revistas.
METODOLOGIA
1º Passo: Estudo da poesia de Patativa do Assaré Vida Sertaneja, poema Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto e da música Chico Science Manguetown, identificando o espaço em que se localizam e a situação social das personagens dos textos a fim de retratar a temática sobrevivência.
2º Passo: Identificação das variações lingüísticas objetivando estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando os aspectos do contexto histórico, geográfico, social e estilístico.
3º Passo: Produção textual narrativa alusiva a temática: perfil do nordestino: sertão, Capibaribe e mar.
4º Passo: Produção Poética.
5º Passo: Produção de bricolagem poética.
RECURSOS
Cópia do texto poema Vida Sertaneja de Patativa do Assaré, poema Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto e a composição musical de Chico Science Manguetown, revistas, jornais, material de papelaria e som.
AVALIAÇÃO
O aluno será avaliado a partir da sua desenvoltura na habilidade argumentativa e oral, além da realização das atividades propostas.
CRONOGRAMA
10 h/a




Plano de aula: a seca e a felicidade dos sertanejos decorrente da chuva.


OBJETIVO
Analisar o poema Dois Quadros de Patativa do Assaré e a música Chover (ou invocação para um dia líquido) da banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado, bem como identificar as principais características da poesia de Patativa e da música de Cordel do Fogo Encantado, evidenciando a temática da seca e da felicidade dos sertanejos decorrente da chuva.
CONTEÚDOS / COMPETÊNCIAS E HABILIDADES RELACIONADAS AO CONTEÚDO (BCC)

Conceituais: Preconceito linguístico: a simplicidade da fala nordestina; a diferença entre linguagem formal e linguagem informal em textos escritos.
Atitudinais: Interesse pelo conhecimento e compreensão do universo nordestino, sertanejo; Interesse por descobrir as várias formas que a linguagem pode ser empregada.
METODOLOGIA
1º Passo: Leitura interpretativa em sala de aula da poesia Dois Quadros de Patativa do Assaré e apreciação da música Chover (ou invocação para um dia líquido) de Cordel do Fogo Encantado seguido de debate para associações temáticas entre os dois textos;
2º Passo: Análise linguística dos dois textos valorizando a linguagem informal como retrato de um grupo de pessoas baseado na leitura de capítulo do livro de Marcos Bagno – “Preconceito Linguístico”. Em seguida debate com base na leitura do texto de Marcos Bagno;
3º Passo: Produção de um sarau, com leitura de poesias de Patativa do Assaré; e
4º Passo: Produção de uma pequena estória baseada na letra da música de Cordel do Fogo Encantado para possível representação.
RECURSOS
Poesia e Música impressas para leitura, trecho impresso do capítulo I – “As pessoas sem instrução falam tudo errado” (p. 40) do livro Preconceito Linguístico de Marcos Bagno, cd e som para reprodução da música de Cordel do Fogo Encantado, espaço para apresentação do sarau e material para a reprodução da estória escrita pelos alunos.
AVALIAÇÃO
O aluno será avaliado a partir da sua desenvoltura na habilidade argumentativa e oral, além da realização das atividades propostas.
CRONOGRAMA
08 h/a





Plano de aula: poema “ A triste partida” de Patativa do Assaré e capítulos do romance “ Vidas Secas “ de Graciliano Ramos.

OBJETIVOS
Desenvolver plano de aula, tomando como referência o tema do Projeto do Gestar II – “ Vida e Encantos do Sertão na Obra de Patativa do Assaré”

Reconhecer no poema de Patativa a importância da oralidade como meio de denúncia social da vida do sertanejo.

Identificar nos capítulos do livro “ Vidas Secas”o mesmo tema abordado no poema “ A triste partida”, mediante outra perspectiva estrutural e formal.

Relatar após estudos e análises a interação entre os textos ( capítulos do livro e poema canção) objetivando mostrar o ritual vivido pelo sertanejo diante da escassez da chuva e suas consequências sócio-econômicas.

Argumentar, utilizando os textos trabalhados, salientando que a vida do sertanejo permanece a mesma, apesar do progresso tão alardeado pelos governantes.

CONTEÚDOS / COMPETÊNCIAS E HABILIDADES RELACIONADAS AO CONTEÚDO (BCC)

Analise do discurso oral do poema canção de Patativa, verificando o contexto social no qual o mesmo está inserido.

Discussão acerca dos elementos que estão na base do preconceito linguístico e sua natureza discriminatória, concernentes ao poema e a música.

Reconhecimento dos gêneros textuais e seus elementos constituintes ( narração ( contos )e poema canção ).

Identificação dos temas centrais de cada texto.

Estabelecimento das relações temáticas ou estruturais, de semelhança ou oposição, entre textos de autores e épocas diversas.

Reflexão sobre a linguagem como uma das formas de atuação do homem sobre a realidade em que vive.

Reflexão sobre o caráter discursivo e interdiscursivo da língua.

METODOLOGIA
1º Passo: Documentário sobre vida e obra de Patativa do Assaré.

2º Passo: Estudo dos textos: “A triste partida”, dos capítulos do livro “ Vidas Secas” (Mudança – Baleia – Fuga ) e apreciação da canção “ A triste partida”; estabelecendo entre os mesmos relações intertextuais e temáticas.

3º Passo: Apreciação da música “A triste partida” na voz de Luiz Gonzaga e criar um paralelo entre os capítulos do livro “ Vidas Secas” e a mesma para que seja discutido as questões orais, sociais e econômicas.

4º Passo: Debates orientados salientando a luta do sertanejo para não emigrar do seu “ torrão” apesar do contínuo ciclo da seca que o atinge.

5º Passo: Identificação das variações linguísticas dos textos trabalhados, criando relações entre o texto literário e o texto não literário ( o popular).

6º Passo: Dramatização do poema canção e dos capítulos de “ Vidas Secas” utilizando a linguagem característica de cada um e deixando fluir a criticidade.

7º Passo: Construção de tiras e charges alusivas aos textos trabalhados e exposição das mesmas.

RECURSOS
Cópias do poema canção “ A triste partida”, cópias dos capítulos de “ Vidas Secas” – “ Mudança”, Baleia” e “Fuga”, exposição do Filme “Vidas Secas” via TV/DVD, exposição do documentário de Patativa via TV/DVD, audição da música “ A triste partida” via CD/ SOM, papel, lápis e tinta ( construção das charges ).

AVALIAÇÃO
· Será levada em conta a participação do aluno nas discussões e nas apresentações dramáticas/ charges elaboradas em aula, cuja temática permita que seja observado o entendimento do mesmo diante dos conteúdos apresentados.

CRONOGRAMA
10 h/a







TEXTOS




A Triste Partida
Patativa do Assaré

Meu Deus, meu DeusSetembro passouOutubro e NovembroJá tamo em DezembroMeu Deus, que é de nós,Meu Deus, meu DeusAssim fala o pobreDo seco NordesteCom medo da pesteDa fome ferozAi, ai, ai, aiA treze do mêsEle fez experiênçaPerdeu sua crençaNas pedras de sal,Meu Deus, meu DeusMas noutra esperançaCom gosto se agarraPensando na barraDo alegre NatalAi, ai, ai, aiRompeu-se o NatalPorém barra não veioO sol bem vermeioNasceu muito alémMeu Deus, meu DeusNa copa da mataBuzina a cigarraNinguém vê a barraPois barra não temAi, ai, ai, aiSem chuva na terraDescamba Janeiro,Depois fevereiroE o mesmo verãoMeu Deus, meu DeusEntonce o nortistaPensando consigoDiz: "isso é castigonão chove mais não"Ai, ai, ai, aiApela pra MarçoQue é o mês preferidoDo santo queridoSinhô São JoséMeu Deus, meu DeusMas nada de chuvaTá tudo sem jeitoLhe foge do peitoO resto da féAi, ai, ai, aiAgora pensandoEle segue outra triaChamando a famiaComeça a dizerMeu Deus, meu DeusEu vendo meu burroMeu jegue e o cavaloNóis vamo a São PauloViver ou morrerAi, ai, ai, aiNóis vamo a São PauloQue a coisa tá feiaPor terras alheiaNós vamos vagarMeu Deus, meu DeusSe o nosso destinoNão for tão mesquinhoAi pro mesmo cantinhoNós torna a voltarAi, ai, ai, aiE vende seu burroJumento e o cavaloInté mesmo o galoVenderam tambémMeu Deus, meu DeusPois logo apareceFeliz fazendeiroPor pouco dinheiroLhe compra o que temAi, ai, ai, aiEm um caminhãoEle joga a famiaChegou o triste diaJá vai viajarMeu Deus, meu DeusA seca terríviQue tudo devoraAi,lhe bota pra foraDa terra natalAi, ai, ai, aiO carro já correNo topo da serraOiando pra terraSeu berço, seu larMeu Deus, meu DeusAquele nortistaPartido de penaDe longe acenaAdeus meu lugarAi, ai, ai, aiNo dia seguinteJá tudo enfadadoE o carro embaladoVeloz a correrMeu Deus, meu DeusTão triste, coitadoFalando saudosoCom seu filho chorosoIscrama a dizerAi, ai, ai, aiDe pena e saudadePapai sei que morroMeu pobre cachorroQuem dá de comer?Meu Deus, meu DeusJá outro perguntaMãezinha, e meu gato?Com fome, sem tratoMimi vai morrerAi, ai, ai, aiE a linda pequenaTremendo de medo"Mamãe, meus brinquedoMeu pé de fulô?"Meu Deus, meu DeusMeu pé de roseiraCoitado, ele secaE minha bonecaTambém lá ficouAi, ai, ai, aiE assim vão deixandoCom choro e gemidoDo berço queridoCéu lindo e azulMeu Deus, meu DeusO pai, pesarosoNos fio pensandoE o carro rodandoNa estrada do SulAi, ai, ai, aiChegaram em São PauloSem cobre quebradoE o pobre acanhadoPercura um patrãoMeu Deus, meu DeusSó vê cara estranhaDe estranha genteTudo é diferenteDo caro torrãoAi, ai, ai, aiTrabaia dois ano,Três ano e mais anoE sempre nos pranoDe um dia vortarMeu Deus, meu DeusMas nunca ele podeSó vive devendoE assim vai sofrendoÉ sofrer sem pararAi, ai, ai, aiSe arguma notíçaDas banda do norteTem ele por sorteO gosto de ouvirMeu Deus, meu DeusLhe bate no peitoSaudade de móioE as água nos óioComeça a cairAi, ai, ai, aiDo mundo afastadoAli vive presoSofrendo desprezoDevendo ao patrãoMeu Deus, meu DeusO tempo rolandoVai dia e vem diaE aquela famiaNão vorta mais nãoAi, ai, ai, aiDistante da terraTão seca mas boaExposto à garoaA lama e o paúMeu Deus, meu DeusFaz pena o nortistaTão forte, tão bravoViver como escravoNo Norte e no SulAi, ai, ai, ai


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Morte e Vida Severina
João Cabral de Melo Neto


O meu nome é Severino, como não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo ora a Vossas Senhorias? Vejamos: é o Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com nome de Severino filhos de tantas Marias mulheres de outros tantos, já finados, Zacarias, vivendo na mesma serra magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas e iguais também porque o sangue, que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras suando-se muito em cima, a de tentar despertar terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar alguns roçado da cinza. Mas, para que me conheçam melhor Vossas Senhorias e melhor possam seguir a história de minha vida, passo a ser o Severino que em vossa presença emigra.




Manguetown
Chico Science

Estou enfiado na lama É um bairro sujo Onde os urubus têm casas E eu não tenho asas Mas estou aqui em minha casa Onde os urubus têm asas Vou pintando segurando as paredes do mangue do meu quintal Manguetown Andando por entre os becos Andando em coletivos Ninguém foge ao cheiro sujo Da lama da Manguetown Andando por entre os becos Andando em coletivos Ninguém foge à vida suja dos dias da Manguetown Esta noite eu sairei Vou beber com meus amigos E com as asas que os urubus me deram ao dia Eu voarei por toda a periferia Vou sonhando com a mulher Que talvez eu possa encontrar Ela também vai andar Na lama do meu quintal Manguetown Fui no mague catar lixo Pegar caranguejo, conversar com urubu
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Deus E Eu No Sertão
Victor e Leo

Composição: Victor Chaves
Nunca vi ninguémViver tão felizComo eu no sertão


Perto de uma mataE de um ribeirãoDeus e eu no sertão


Casa simplesinhaRede pra dormirDe noite um show no céuDeito pra assistir

Deus e eu no sertão

Das horas não seiMas vejo o clarãoLá vou eu cuidar do chão

Trabalho cantandoA terra é a inspiração
Deus e eu no sertão

Não há solidãoTem festa lá na vilaDepois da missa vouVer minha menina


De volta pra casaQueima a lenha no fogãoE junto ao som da mataVou eu e um violão

Deus e eu no sertão





Eu e o Sertão
Patativa do Assaré

Sertão, arguém te catô
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tõ,
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
E vejo qui os teus mistero
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Qui o poeta canta, canta
E inda fica o qui cantá.

No rompê de tua orora,
Meu sertão do Ciará,
Quando escuto as voz sonora
Do sadoso sabiá,
Do canaro e do campina,
Sinto das graça divina
O seu imenso pudê,
E com munta razão vejo,
Que a gente sê sertanejo
É um dos maió prazê.


Sertão, minha terra amada,
De bom e sadio crima,
Que me deu de mão bejada
Um mundo cheio de rima.
O teu só é tão ardente,
Que treme a vista da gente
Nas parede de reboco,
Mas tem milagre e virtude,
Que dá corage, saúde
E alegria aos teus caboco.


Acho mesmo que ninguém
Sabe direito cantá
Tanta beleza que tem
Tuas noite de luá,
Quando a lua sertaneja,
Toda amorosa despeja
Um grande banho de prata
Pro riba da terra intêra
E a brisa assopra manêra,
Fazendo cosca na mata.

Sertão do Bumba Meu Boi
E da armonca de oito baxo,
O teu fio sempre foi
Corajoso, Cabra Macho;
O tempo nunca destrói
A fama do teu herói
De pernêra e de gibão,
Caboco que não resinga
Corrê dentro da catinga,
Na pega do barbatão.

Tu é belo e é importante,
Tudo teu é naturá
Ingualmente o diamante,
Ante de arguém lapidá.
Deste jeito é que te quero,
Munto te estimo e venero,
Vivendo assim afastado
Da vaidade, do orguio,
Guerra, questão e baruio
Do mundo civilizado.

Tu veve munto esquecido
Dos meio da inducação,
Sempre, sempre tem vivido,
Sem escola e sem lição.
Teu mundo é bem pequenino,
Por isso do teu destino,
Da tua simplicidade
Nasce a fé e a esperança;
Tua santa inguinorança
Incerra munta verdade.

Rescordo com grande amô
O meu tempo de rapaz,
Tempo qui os ano levô
E os desengano não traz,
Quando toda noite eu ia
Cheio de doce alegria,
Sem infado do trabaio,
Uvi, de peito contrito,
As oração e os bendito
Das festa do mês de maio.

Uma singela bandêra
Bem no terrêno se via,
Homenage verdadêra
Do santo mês de Maria,
Na sala, inriba da mesa,
Umas quatro vela acesa
E de juêio no chão,
Uma muié paciente
Lendo vagarosamente
Com a cartia na mão.

Inquanto lendo seguia
Aquela boa sinhora,
De quando in vez repetia
Bonita jaculatóra;
Todo povo acumpunhava
E quando a mesma rezava
Padre Nosso e Ave Maria,
De contrição todas cheia,
Com suas voz de Sereia,
As caboca respondia.


_Neste mês de alegria,
Tão lindro mês de frô,
Queremo de Maria
Celebrá o seu louvô.

Sertão amigo, eu tô vendo
Que o s teus nôvo camponês,
Hoje ainda tão fazendo
Aquilo que os véio fez.

Que doce felicidade
Eu gozei na mocidade,
Nesta santa ingorfação!
Quando se acabava Maio,
Já começava os insaio
Do santo mês de S. João.


Como o ricaço usuraro
Guarda uma moeda de ôro
Fiz do meu peito sacraro
E guardei estes tesôro.
E aqui, dentro do meupeito,
Inda tá tudo perfeito,
Não mudaro de feição
As duas fotografia,
Do santo mês de Maria
E nem vai fugí tão cedo
As diversão de adivinha,
Manêro pau, Cirandinha
E muitos ôtro brinquedo.

Hoje sou veió e tô vendo
Que já tô perto da morte,
Mas porém, morro dizendo
Que fui caboco de sorte,
Não dou cavaco in morrê,
Somente por conhecê
Qui há tempo tá reservado
In tu, querido sertão,
O meu quadrinho de chão
Pra nele eun sê sipurtado.

E mesmo depois de morto,
Mesmo depois de morrê,
Ainda gozo conforto,
Ainda gozo prazer,
Pois, se é verdade que as arma,
Mesmo as que vivero carma
E arcançaro a sarvação,
Fica vagando no espaço,
Os meus caracó eu faço
Pro riba do meu sertão.





João Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas
- Nonada. Tiros que o senhor ouviu forma de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu - ; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pela a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão?Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre e volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda parte.
Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele - dizem só: o Que-Diga. Vote! não... Quem muito se evita, se convive. Sentença num Aristides – o que existe no buritizal primeiro desta minha mão direita, chamado a Vereda-da-Vaca-Mansa-de-Santa-Rita – todo o mundo crê: ele não pode passar em três lugares, designados: porque então a gent escuta um chorinho, atrás, e uma vozinha que avisando: - “Eu já vou! Eu já vou!...”- que é o capiroto, o que-diga... E um jisé Simpilício – quem qualque daqui jura ele tem um capeta em casa, miúdo satanazim, preso obrigado a ajudar em toda ganância que executa; razão que o Simpilício se empresa em vias de completar de rico. Apre, por isso dizem também que a besta pra ele rupêia, nega de banda, não deixando, quando ele quer amontar... Superstição. Jisé Simpilício e Aristides, mesmo então se engoradando, de assim não-ouvir ou ouvir. Ainda o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de época, tem gente porfalando que o Diabo próprio parou, de passagem, no Andrequicé. Um moço de fora, teria aparecido, e lá se louvou que, para aqui vir – normal, a cavalo, dum dia-e-meio – ele era capaz que só com uns vinte minutos bastava... porque costeava o Rio do Chico pelas cabeceiras! Ou, também, quem sabe – sem ofensas – não terá sido, por um exemplo, até mesmo o senhor quem anunciou assim, quando passou por lá, por prazido divertimento engraçado? Há- de, não me dê crime, sei que não foi. E mal eu não quis. Só que uma pergunta, em hora, às vezes clarêia razão de paz. Mas, o senor entenda: o tal moço, se há, quis mangar. Pois, hem, que, despontar o Rio pelas nascentes, será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso Estado nosso, custante viagem de uns três meses... Então? Que-Diga? Doideira. A fantasiação. E, o respeito de dar a ele assim esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que ele forme forma, com as presenças!
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Dois quadros

Na seca inclemente do nosso Nordeste,O sol é mais quente e o céu mais azulE o povo se achando sem pão e sem veste,Viaja à procura das terra do Sul.De nuvem no espaço, não há um farrapo,Se acaba a esperança da gente roceira,Na mesma lagoa da festa do sapo,Agita-se o vento levando a poeira.A grama no campo não nasce, não cresce:Outrora este campo tão verde e tão rico,Agora é tão quente que até nos pareceUm forno queimando madeira de angico.Na copa redonda de algum juazeiroA aguda cigarra seu canto desataE a linda araponga que chamam Ferreiro,Martela o seu ferro por dentro da mata.O dia desponta mostrando-se ingrato,Um manto de cinza por cima da serraE o sol do Nordeste nos mostra o retratoDe um bolo de sangue nascendo da terra.Porém, quando chove, tudo é riso e festa,O campo e a floresta prometem fartura,Escutam-se as notas agudas e gravesDo canto das aves louvando a natura.Alegre esvoaça e gargalha o jacu,Apita o nambu e geme a juritiE a brisa farfalha por entre as verduras,Beijando os primores do meu Cariri
De noite notamos as graças eternasNas lindas lanternas de mil vagalumes.Na copa da mata os ramos embalamE as flores exalam suaves perfumes.Se o dia desponta, que doce harmonia!A gente aprecia o mais belo compasso.Além do balido das mansas ovelhas,Enxames de abelhas zumbindo no espaço.E o forte caboclo da sua palhoça,No rumo da roça, de marcha apressadaVai cheio de vida sorrindo, contente,Lançar a semente na terra molhada.Das mãos deste bravo caboclo roceiroFiel, prazenteiro, modesto e feliz,É que o ouro branco sai para o processoFazer o progresso de nosso país




CHOVER

"O sabiá no sertãoQuando canta me comovePassa três meses cantandoE sem cantar passa novePorque tem a obrigaçãoDe só cantar quando chove*Chover choverValei-me Ciço o que posso fazerChover choverUm terço pesado pra chuva descerChover choverAté Maria deixou de moerChover choverBanzo Batista, bagaço e banguêChover choverCego Aderaldo peleja pra verChover choverJá que meu olho cansou de choverChover choverAté Maria deixou de moerChover choverBanzo Batista, bagaço e banguêMeu povo não vá simboraPela ItapemirimPois mesmo perto do fimNosso sertão tem melhoraO céu tá calado agoraMais vai dar cada trovãoDe escapulir torrãoDe paredão de tapera**Bombo trovejou a chuva choveuChoveu choveuLula Calixto virando MateusChover choverO bucho cheio de tudo que deuChover choversuor e canseira depois que comeuChover choverZabumba zunindo no colo de DeusChover choverInácio e Romano meu verso e o teuChover choverÁgua dos olhos que a seca bebeuQuando chove no sertãoO sol deita e a água rolaO sapo vomita espumaOnde um boi pisa se atolaE a fartura esconde o sacoQue a fome pedia esmola**Seu boiadeiro por aqui choveuSeu boiadeiro por aqui choveuChoveu que amarrotouFoi tanta água que meu boi nadou***


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